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A CIÊNCIA COMO

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A CIÊNCIA COMO
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  22  |  CIÊNCIAHOJE | VOL. 47 |   279   A CIÊNCIA COMO INSPIRAÇÃO  279 | MARÇO | 2011 | CIÊNCIAHOJE  | 23 LITERATURA “It’s alive!” (está vivo, em inglês) é a frase com a qual Victor Frankenstein, ao dar vida ao seu monstro, sedimenta a figura de cientista louco no imaginário popular. Essa cena emblemá-tica está na adaptação cinematográfica de 1931 do romance Frankenstein  : ou O moderno Prometeu  , da escritora inglesa Mary Shelley (1797-1851). O livro é considerado a obra funda-dora do gênero literário conhecido como ficção científica, que desde sua criação está intrinsecamente ligado à ciência e tecnologia. Mas como é essa relação? A ficção científica é uma espécie de profeta, prevendo hoje os avanços de amanhã? Seria uma maneira de discutir os problemas do presente e os desdobramentos da tecnologia na sociedade? Ou é apenas uma literatura que busca inspiração na ciência? FRED FURTADO Ciência Hoje /RJ ara entendermos essa relação, temos que analisar as obras de ficção científica dentro de seus contextos. Frankenstein , por exemplo, foi publicado em 1818, quando a Inglaterra já se encontrava na Revolução Industrial e experimentos de galvanismo, como aqueles conduzidos pelo médico italiano Luigi Alyisio Galvani (1737-1798), que usava eletricidade para ativar os membros de animais e humanos mortos,  já eram conhecidos. Esses dois elementos foram influências para Shelley na criação de seu romance.“Ela não era cientista, mas seu livro criou o mito moderno da ciência”, afirma a bióloga e teórica da literatura Lúcia Rodriguez de La Roque, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Para La Rocque, que estuda a relação entre ciência e ficção científica, Shelley levantou questões quanto ao desenvolvimento científico e corporificou a reação do público leigo à ciência. “Embora ela deixasse uma porta aberta para as consequências positivas, ela deu ênfase às negativas. É claro que isso foi, em parte, uma escolha estilística, pois, sem conflito, não há história”, observa a bióloga.O jornalista científico inglês Jon Turney, do Imperial College, em Londres (Inglaterra), descreve a atitude de Shelley em relação à ciência como ambivalente. Autor de Frankenstein’s footsteps (algo como ‘ Passos de Frankenstein ’, ainda não publicado no Brasil), que discute a maneira como as ciências biológicas são divulgadas e sua relação com o livro da autora inglesa, Turney >>> Teóricos e escritores discutem a ficção científica e seu futuro  24  |  CIÊNCIAHOJE | VOL. 47 |   279  Júlio Verne e o clássico Vinte Mil Léguas Submarinas   (1870) explica que Shelley trata o tema de uma maneira rica e complexa. “Por um lado, ela percebe as vantagens de uma medicina avançada, como a eliminação da morte prema-tura e das doenças. Por outro, vê com temeridade a capa-cidade de controlar a reprodução e redesenhar os seres humanos, atividades que estariam sob controle de criaturas imperfeitas – nós.” La Rocque complementa: “Ela distin-gue entre uma ciência boa e uma má. Estudar a natureza seria algo aceitável; tentar manipulá-la, não.”Essa abordagem mudaria com o avanço do gênero – a ciência e a tecnologia em si seriam neutras; seus usos, por outro lado, poderiam ser moralmente questionáveis. Mas a obra de Shelley foi tão marcante que acabou estabele-cendo a base da imagem pública da ciência. “Ela criou o arquétipo do cientista louco, aquele homem frio, cuja ob-sessão científica o afasta do bem”, relata. Rígida e suave_ É na segunda metade do século 19 que surge o que se convenciona chamar de ficção científica, simbolizado pelas obras do inglês Herbert George (H.G.) Wells (1866-1946) e do francês Júlio Verne (1828-1905), considerados os ‘pais’ do gênero. Aqui já é possível ver a se-mente do que mais tarde seriam chamados os subgêneros hard   (rígido) e soft   (suave) dessa literatura. No primeiro, o autor se limita a utilizar na história apenas o que é conside-rado possível pela ciência da época ou extrapolações plausí-veis. Verne seria um exemplo desse estilo. Em 20 mil léguas submarinas , ele dá explicações detalhadas do funcionamen-to do submarino do capitão Nemo, o Nautilus. Já na  soft,  o fato científico pode ser usado como ponto de partida, mas a narrativa não está presa a ele e pode envol-ver temas das ciências sociais. É o caso de Wells, que abor-dou a estratificação social da Inglaterra em  A máquina do tempo . Diz-se que, quando questionado a respeito da obra do inglês, Verne teria dito que ele mentia. “Apesar disso, as obras de Wells têm conceitos que poderiam ser consi-derados revolucionários, como tratar o tempo como uma quarta dimensão, em  A máquina do tempo , e a engenharia genética, em  A ilha do doutor Moreau”  , conta La Rocque. Outra diferença entre os ‘pais’ da ficção científica era sua abordagem quanto à tecnologia: Verne a via como algo po-sitivo, enquanto nas histórias de Wells as coisas não eram tão felizes assim. No século 20, segundo a bióloga, a maioria das histórias passa a ter uma preocupação com o uso inapropriado da ciência e da tecnologia. No conto  A máquina de voar  , do escritor norte-americano Ray Bradbury, o imperador chi-nês Yuan manda destruir uma máquina de voar inventada por um súdito, bem como assassiná-lo, com medo de que ela possa ser usada por outros contra o seu reino. “A histó-ria trata a questão do mau uso das descobertas científicas”, diz La Rocque, mas ela ressalta que nem sempre a visão era negativa. Em  Admirável mundo novo , do escritor inglês Aldous Leonard Huxley (1894-1963), a ciência, bem como a arte, são consideradas coisas boas. “Na sociedade dis-tópica retratada no livro, ciência e arte não são ensinados aos cidadãos, porque fazem com que os indivíduos pensem e reflitam sobre sua condição e o mundo.” Futuro presente_ A imagem que se faz atualmente da ficção científica, com naves espaciais, robôs etc., está muito calcada na produção cinematográfica e de séries de TV norte-americanas, as quais foram inspiradas pela Era de Ouro do gênero, o período que começou em 1938 e se estendeu até meados da década de 1950. O termo ficção científica havia sido cunhado alguns anos antes, em 1929, no número um da revista Science Wonder Stories , pelo seu editor, Hugo Gernsback (1884-1967). As histórias dessa época se caracterizavam pela ênfase científica e aventu-resca. Foi durante esse período que nomes famosos do gê-nero foram revelados, como Arthur C. Clarke (1917-2008), Isaac Asimov (1920-1992), Ray Bradbury e Robert A. Heinlein (1907-1988), entre outros. Mary Shelley, autora de Frankenstein   (1818) F   O  N  T  E  :  C  H  R  I    S  T  I   A  N  D  A  R  K  I   N   /    S   C  I   E  N   C  E  P  H   O  T   O  L  I   B  R  A  R  Y  H   U  M A  N  I   T  I   E   S  A  N  D   S   O   C  I   A  L   S   C  I   E  N   C  E   S  L  I   B  R  A  R  Y   /   N  E  W Y   O  R  K  P   U  B  L  I    C  L  I   B  R  A  R  Y   /    S   C  I   E  N   C  E  P  H   O  T   O  L  I   B  R  A  R  Y  W I   K  I   P  É   D  I   A  W I   K  I   P  É   D  I   A  W I   K  I   P  É   D  I   A    279 | MARÇO | 2011 | CIÊNCIAHOJE  | 25 À direita, tripulação da série srcinal de  Jornada nas estrelas  A ideia de que a ficção científica é profética em relação à ciência e ao desenvolvimento – noção contestada por es-critores e estudiosos do gênero – ficou cimentada nessa época. A novela Waldo , de Robert A. Heinlein, é creditada não só como tendo previsto a invenção de membros artifi-ciais, como os usados hoje para manipulação de substâncias tóxicas, mas também por ter inspirado todo um novo cam-po da ciência, a nanotecnologia. Em seu livro Nanovision  ( Nanovisão , ainda não publicado no Brasil), o professor de literatura norte-americano Colin Milburn argumenta que o físico norte-americano Richard Feynman (1918-1988) teria sido diretamente inspirado pela história, ao usar, na seminal palestra de 1959, a imagem de mãos operando alavancas para ativar ‘mãos’ auxiliares capazes de mani-pular objetos nanoscópicos.Outro exemplo de presciência é creditado ao inglês Arthur C. Clarke, que, além de escritor, era também cientista. Em artigo de 1945 na revista inglesa Wireless World  , ele propôs que satélites artificiais em órbita geoestacio nária seriam bons terminais de comunicação. Segundo a proposta, uma estação espacial em órbita acima da linha do Equador, a uma altitude de aproximadamente 42 mil km (atualmente, a órbita é de 36 mil km), circularia a Terra no mesmo tempo em que esta leva para completar uma rotação. Ou seja, para alguém no chão, a estação pa-receria imóvel, sempre acima do mesmo ponto. A órbita geoestacionária é hoje chamada de órbita Clarke. H. G. Wells, autor de  A máquina do tempo   (1895) e  A Ilha do Doutor Moreau   (1896)Os escritores Isaac Asimov, autor de Os próprios deuses   (1972) e Robert A. Heinlein, criador de Waldo  Arthur Clarke, autor de Encontro com Rama   (1972) F   O  N  T  E  : P  E  T  E  R  M E  N  Z  E  L   /    S   C  I   E  N   C  E  P  H   O  T   O  L  I   B  R  A  R  Y  W I   K  I   P  É   D  I   A          W       I       K       I       P        É       D       I       A Elevador espacial imaginado por Arthur Clarke, que também previu satélites artificiais para comunicação O termo ficção científica apareceu pela primeira vez na revista Science Wonder Stories  >>> LITERATURA  26  |  CIÊNCIAHOJE | VOL. 47 |   279 Extrapolação e mudança_ Para o teórico da co-municação Fábio Fernandes, professor de Tecnologia e Mídias Digitais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e autor de ficção científica, não faz senti-do limitar o gênero a previsões do futuro, mesmo porque as histórias podem ser ambientadas em outras épocas, in-cluindo o passado. Ele cita um exemplo dado pelo escritor norte-americano William Gibson, considerado o pai do subgênero cyberpunk , criado nos anos 1980 e que combina cibernética, tecnologia da informação e degradação da or-dem social. Para mostrar como é falha a ideia de previsão do gênero, Gibson criticara uma cena do seu primeiro ro-mance, Neuromancer  , de 1984. Nela, o protagonista está fugindo de um hotel onde uma inteligência artificial tenta contatá-lo ativando os telefones públicos de cada andar. “A história se passa na metade do século 21 e não existem telefones celulares”, destaca Fernandes.Ele acrescenta que os temas da ficção científica não necessariamente têm que versar sobre avanços tecnoló--gicos. “Essa abordagem da Era de Ouro muda na década de 1960, com a Nova Onda, que, influenciada pela contra-cultura, traz as ciências sociais para a ficção científica e o experimentalismo literário comum em outros gêneros da literatura”, comenta o escritor. Harlan Ellison, Roger Zelazny (1937-1995) e Philip K. Dick (1928-1982) são alguns dos autores consagrados dessa época.O cientista espacial e escritor norte-americano David Brin, autor de obras conhecidas no gênero, como  Maré alta estelar   e  A guerra da elevação , concorda que a função da ficção científica é perguntar ‘e se?’. Para ele, o tema central do gênero é a mudança e as melhores histórias são aquelas que se tornam ‘profecias que se autoprevi-nem’, aquelas que são tão bem-sucedidas em pintar um futuro terrível que inspiram as pessoas a impedir que este aconteça, como o clássico 1984 , do inglês George Orwell (1903-1950), e o filme No mundo de 2020   ( Soylent  green , no srcinal), dirigido por Richard Fleischer. Mas o escritor brinca: “É claro que os autores de ficção cientí - fica não se importam de ter fama de profeta. Meus leito-res mantêm uma página na internet com todos os meus acertos e os hilários erros.”Se essa literatura não é profética em relação à ciência, qual a relação dela com os campos científicos e tecnoló-gicos? O escritor de ficção científica Roberto de Sousa Causo é categórico: “É de extrapolação”. Segundo ele, os autores do gênero procuram extrapolar o impacto e as consequências de um determinado conhecimento cien-tífico e contar uma história com base nesses detalhes. O também escritor e astrônomo Gerson Lodi-Ribeiro ar-remata: “Ficção científica não é divulgação científica. Como uma literatura de gênero, sua função principal é o entretenimento”. USS Interprise-D, nave estelar do seriado  Jornada nas estrelas   – a nova geração  >>>
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