of 24

A GUERRA DO PARAGUAI NO ROMANCE CUNHATAÍ (2003)

24 views
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Share
Description
Desde que surgiu, no romantismo europeu, a modalidade de texto híbrido entre história e ficção conhecida como romance histórico a literatura passou a ser uma fonte privilegiada de reler o passado sob novas visões e múltiplas perspectivas. A
Tags
Transcript
  I Encontro Internacional Sociedade, Cultura e Fronteiras: Interdisciplinaridade em Foco – 2013 A GUERRA DO PARAGUAI NO ROMANCE CUNHATAÍ (2003)Gilmei Francisco Fleck (UNIOESTE/Cascavel, Paraná, Brasil)Toni Juliano Bandeira (UNIOESTE/Cascavel, Paraná, Brasil) Desde que surgiu, no romantismo europeu, a modalidade de texto híbrido entre história e ficção conhecida como romance histórico a literatura passou a ser uma fonte privilegiada de reler o passado sob novas visões e múltiplas perspectivas. A possibilidade da ficção retomar eventos do passado e sobre eles apresentar outros pontos de vista a partir das possíveis vivências e vozes daqueles que sempre foram excluídos do discurso oficial possibilita romper com ideias de verdades absolutas e visões hegemônicas sobre grande parte de nosso passado.Entre as muitas releituras que o romance histórico contemporâneo latino-americano vem efetuando está o tema da Guerra do Paraguai – o maior conflito bélico já travado na América latina. Nessas releituras da história pela ficção surgem inúmeras revelações que o discurso historiográfico deixou de lado, ou não prestigiou, ou simplesmente ignorou por não ser de interesse. Entre as várias obras contemporâneas que se dedicam a reler esta temática está Cunhataí (2003), de Maria Filomena Boiussou Lepecki,No romance histórico Cunhataí (2003), tem-se uma narrativa que trata da releitura do episódio da Guerra do Paraguai que ficou conhecido como “A   retirada da Laguna” , título que Alfredo D’Escraguenolle Taunay, o visconde de Taunay, deu à obra que escreveu, contando os fatos que os brasileiros vivenciaram nos confrontos com os paraguaios. A Guerra do Paraguai começou no ano de 1865 e uma das formas de reação do governo brasileiro foi o envio de tropas para invadir o Paraguai setentrional. As maiores dificuldades da execução das ordens do imperador brasileiro D. Pedro II consistiram no desprovimento de alimentos e no desconhecimento da natureza daquela região. Sobre isso Taunay apontou:  I Encontro Internacional Sociedade, Cultura e Fronteiras: Interdisciplinaridade em Foco – 2013 Ao norte, do lado de Mato-Grosso, eram as operações infinitamente mais difíceis, não só porque ocorriam a milhares de quilômetros do litoral atlântico, onde se concentram todos os recursos do Brasil, como ainda por causa das inundações do rio Paraguai, que, cortando na parte superior do curso terras baixas e planas, transborda anualmente, a submergir então regiões extensíssimas. Consisti o plano de ataque mais natural em subir as águas do Paraguai, do lado da Argentina, até o coração da república inimiga e, do Brasil, descê-las a partir de Cuiabá, a capital mato-grossense que os paraguaios não haviam ocupado. Teria impedido à guerra arrastar-se durante cinco anos consecutivos esta conjugação de esforços simultâneos. Mas era-lhe a realização extraordinariamente difícil, devido às enormes distâncias a transpor. Basta lançar os olhos sobre um mapa da América do Sul e examinar o interior do Brasil, em grande parte desabitado, para que qualquer observador de tal se convença logo. (TAUNAY, 1967, p. 31). Essa natureza desconhecida pelas tropas brasileiras é tratada com pormenores pela autora do romance em estudo, o que prova o profundo conhecimento geográfico que tem da região, característica que enriquece sua criação literária. No romance, as palavras de um dono de armazém de Campinas, Deodato Pires de Almeida, ou Nhô Dato, alcunha pela qual o conheciam, tratam de indicar ao leitor que a comunicação entre o exército e o Rio de Janeiro aconteceria com grandes dificuldades. Veja-se: E o sul de Mato Grosso deveria ser desabitado. Não havia mapas detalhados, rotas comerciais nem simples trilhas de tropeiros conhecidas. O acesso a Cuiabá era feito por mar e depois pelo estuário e bacia do Prata. O próprio imperador só conseguiu ser notificado da invasão paraguaia 47 dias após o ocorrido. (LEPECKI, 2003, p. 24).  Para que se compreenda melhor a história da Retirada da Laguna, reproduz-se, abaixo, o mapa publicado na obra de Taunay que se citou anteriormente.  I Encontro Internacional Sociedade, Cultura e Fronteiras: Interdisciplinaridade em Foco – 2013   O romance Cunhataí   começa da seguinte forma: Coralina é uma personagem amiga da narradora, Rosália, é ela também que a teria trazido para aquele sertão do Mato Grosso, quando lhe apresentara o fazendeiro de nome Inácio Boqueirão. Este nome era o mesmo da fazenda em que vivia Rosália, um lugar solitário. Coralina. Se não fosse por ela não estaria aqui nesta solidão. Odeio este lugar! Odeio! Não me peçam para descrever a natureza exuberante ou o lindo canto dos pássaros! Ao meu redor só vejo macega rala e ridículas torres de cupim. É minha ilha, meu beco, minha prisão. Espaços há. Imensos e intermináveis, riscados de estradas poeirentas a quilômetros de qualquer lugar. (LEPECKI, 2003, p. 13).  I Encontro Internacional Sociedade, Cultura e Fronteiras: Interdisciplinaridade em Foco – 2013 O romance se inicia com a publicação de um texto informativo assinado por Coralina S. C. Fernandes, que teria vindo a público no jornal “Gazeta Pantaneira”. O assunto é a guerra do Paraguai. Na verdade, Rosália resolve visitar Coralina, na fazenda São Miguel, para saber que história era aquela narrada pela amiga de infância. “Preciso saber que história é essa. O jornal fala da guerra do Paraguai... O que Cora tem a ver com isso? Alguém ainda lembra ou se interessa por isso? Preciso ir, sair um pouco do quarto. Preciso conversar com alguém! Vou lá amanhã”. (LEPECKI, 2003, p. 13). É importante observar que o romance já aponta para a própria reflexão sobre a literatura, no sentido de releitura da Guerra do Paraguai, pois deixa a entender que este acontecimento é muito pouco lembrado na atualidade, ainda que tenha sido a mais terrível guerra de toda a América Latina.É desta forma que Rosália reencontra, no dia seguinte, a antiga amiga de faculdade, a escritora do artigo do jornal. Ao mostrar seu interesse em conhecer aquela história, Coralina já lhe avisa que “é uma história comprida” (LEPECKI, 2003, p. 13), e indaga se ela teria tempo para escutá-la. A resposta positiva de Rosália possibilita o início da narrativa, que, em realidade, constitui o romance todo, narrativa esta que começa no dia 15 de abril de 1865.As tropas brasileiras haviam partido da Vila de Jundiaí, em São Paulo, e a inexperiência nas artes da Guerra predominava entre aquele grupo. Vários soldados possuíam pouca ou nenhuma instrução de guerra [...] Fatigantes se tornavam as manobras mais simples. Intermináveis as dificuldades do dia-a-dia, como encontrar lenha para o fogo, armar e desarmar barracas, lidar com os animais e carga, preparar refeições. Atos que o tempo e a repetição tornariam habituais. Por ora, apenas treinavam. (LEPECKI, 2003, p. 18). Estas dificuldades mostravam às “Forças Expedicionárias em direção ao Sul do Mato Grosso” que a realidade seria muito diferente da que se tentara insinuar quando, poucos dias antes, embarcavam no vapor Santa Maria   na cidade do Rio de Janeiro, ocasião na qual a banda do Corpo Policial havia tocado uma Traviata com acordes perfeitos, com a presença, inclusive, do imperador D. Pedro II e de seus  I Encontro Internacional Sociedade, Cultura e Fronteiras: Interdisciplinaridade em Foco – 2013 dois genros Conde D’Eu e Duque de Saxe. A realidade depois do desembarque em Santos, no litoral paulista, se apresentava com todas as intempéries e adversidades da natureza. Antes de chegar a Campinas, os soldados “aprumaram as fardas, poliram as fivelas e instrumentos musicais”. (LEPECKI, 2003, p. 19). O romance mostra, e com acerto, a imagem que grande parte da sociedade brasileira tem do Exército Nacional, uma imagem que o situa como grande protetor do território brasileiro, de bravura incomensurável. É certo, de fato, que a passagem de tropas do exército sempre causa admiração e emoção, principalmente nas pequenas cidades e vilarejos do país. No romance em questão, esta cena é descrita de maneira interessante, trazendo o clima contagiante e de alarde que toma conta da cidade de Campinas com a chegada das Forças Expedicionárias. A cena é assim descrita: A banda atraiu a gente da cidade que, entre surpresa e fascinada, acorreu aos borbotões. Disputados foram então os passeios e janelas da comprida Rua Direita. Desde as primeiras casas da periferia, sem eira nem beira, passando por algumas com molduras em pedra portuguesa, até as adornadas com beiras em relevo e apliques rococó, todas exibiam seus moradores brandindo lenços e gritando vivas ao imperador. O exército brasileiro constituía uma grande novidade. A cadência ritmada das músicas e passadas a todos impressionava. Era a guerra! E, ali, a guerra era um espetáculo! (LEPECKI, 2003, p. 19). É muito irônica a forma como são tratados os soldados brasileiros. Em dado momento do texto literário descreve-se a balbúrdia que fazem as mulheres todos os dias em que o Exército estava na cidade de Campinas. Em uma destas passagens, estão muitas mulheres em grande falatório na casa do coronel Agostino e dona Glorinha, os pais de da jovem Micaela.   ̶  Micaela, foi bonito? E a banda?   ̶  Mamãe, os oficiais são jovens? Estavam lá?   ̶ Dizem que alguns freqüentam a Corte. Uns poucos têm acesso ao imperador! Será verdade?
Related Search
Advertisements
Related Docs
View more...
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks