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A substituição e exílio de bispos nicenos no Ocidente durante o governo do imperador ariano Constâncio II (337-361)

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Mestranda em História Social das Relações Políticas pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Espírito Santo. A autora é membro do Laboratório de Estudos Sobre o Império Romano (LEIR)/Seção ES. Esse artigo é um fragmento
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    A substituição e exílio de bispos nicenos no Ocidente durante o governo doimperador ariano Constâncio II (337-3!"#elissa #oreira #elo $ieira ! O cristianismo multifacetado dos primeiros quatro séculos foi resultado de um processo lento e variado que se deu em tempos e lugares diferentes e por meio degrupos distintos e discordantes (CHEVITARESE !""# p$ %#&' CROSSA !""& p$)*+$ A ,ist-ria do cristianismo na Antiguidade Tardia é caracteri.ada por controvérsiasdoutrin/rias cismas conc0lios e credos que foram fundamentais para a defini12o dareligi2o crist2 e das formas em que a fé se desenvolveria ao longo dos pr-3imos séculos$4ela15es convites para o Tri6unal de 7usti1a inquéritos oficiais provis5es can8nicas esenten1as de e30lio tornaram9se parte do cotidiano da esfera pol0tico9religiosa doimpério$ Conforme o quarto século avan1ava tornava9se cada ve. mais comum que asdecis5es finais so6re a pol0tica eclesi/stica fossem tomadas pelo imperador (CHA4:IC; %<*" p$ %=!+$ >ois nesta monarquia crist2 é a sua pessoa sagrada quetende a se tornar cada ve. mais o critério ?ltimo da ortodo3ia (@ESI %<#B p$ ="+$ Esses conflitos derivaram9se em grande parte de disputas so6re o trinitarismoespecificamente no que se referia  rela12o entre 4eus >ai e 4eus Dil,o (ARES !""& p$ B%+$ 4entro desses de6ates teol-gicos os personagens envolvidos 6uscavamconstituir uma legitimidade 9 ou seFa uma ortodo3ia 9 em torno de um determinadoconFunto de pensamentos interpreta15es 606licas e doutrinas (>A>A !""< p !*+$ As 1  @estranda em Hist-ria Social das Rela15es >ol0ticas pelo >rograma de >-s9Gradua12o em Hist-ria da niversidade Dederal do Esp0rito Santo$ A autora é mem6ro do a6orat-rio de Estudos So6re o Império Romano (EIR+Se12o ES$ Esse artigo é um fragmento do proFeto de disserta12o com o tema JIdentidade poder e rede de socia6ilidade na Antiguidade TardiaK a dinLmica das querelas religiosas segundo Hil/rio de >oitiers no conte3to do conflito ariano ocidental (=&=9=#%+M orientado pela >rof$ 4ra$ Nrica Crist,ane @orais da Silva$  in?meras disputas cristol-gicas ocorridas no século IV come1aram com a evidencia12odas diferen1as religiosas entre clérigos e levaram a um envolvimento imperial que provocou mais conflitos do que qualquer luta cultural da época e tornou pequenosgrupos teol-gicos em grandes comunidades autoconscientes (SCHOR !"%% p$ *+$ O conflito ariano surgiu a partir de Prio pres60tero de Ale3andria e disc0pulo deuciano de Antioquia !  que negou a vincula12o entre >ai e Dil,o 6ase da doutrinatrinit/ria (TE7A %<<< p$ B#+$ As prega15es de Prio desencadearam uma disputaideol-gica em torno do poder imperial envolvendo suas concep15es dogm/ticas ondecada partido procurou representar o outro como fora do limite de um cristianismoleg0timo (DRIGHETTO !"%" p$ %!"+ de modo que a querela alcan1ou uma dimens2oque nen,um outro de6ate doutrin/rio ,avia alcan1ado (ETRIGER !""< p$ &&+$ Acontrovérsia ariana pode ser dividida em trQs fasesK a primeira fase inicia9se com as prega15es de Prio até a morte de Constantino' a segunda fase parte da ascens2o deConstante e ConstLncio II ao poder e vai até a morte de ConstLncio em =#%' a terceira e?ltima parte insere9se a partir da ascens2o de 7uliano até a tentativa oficial de supress2odo arianismo so6 Teod-sio no Conc0lio de Constantinopla em =*%$ (CHA4:IC;%<*" p$ %==+$ Os escritos de Prio foram perdidos e os fragmentos e3istentes de sua o6ra  queincluem trQs cartas e diversos poemas musicados como a Thalia  9 s2o mencionados por Atan/sio de Ale3andria =  em Contra Arianos  (@AGAHES !""< p$ %")+$ Sendoassim a teologia ariana nos é con,ecida essencialmente por meio de tratados de 6isposque condenavam a mesma$ 4entre os 6ispos orientais envolvidos na querela em seus primeiros anos Atan/sio destacou9se como o principal opositor do arianismo no Orientee tam6ém o principal alvo de acusa15es por parte dos arianos o que o levou ao e30lio por cinco ve.es (ETRIGER !""< p$ #" @AGAHES !""< p$ %*+$ >or quase 2  Eusé6io de Cesareia (Hist-ria Eclesi/stica VIII %= !+ cita a atua12o de uciano de Antioquia e sua influQncia no pensamento de Prio$ uciano teria sido martiri.ado em =%! segundo Altaner e Stui6er (%<B! p$ !!"+$ 3 Atan/sio de Ale3andria apresenta na o6ra Contra Arianos (%"$ %$<+ a nega12o da divindade doDil,o como a principal caracter0stica do arianismo$ O Dil,o n2o é eterno ou imut/vel e n2o tem uma e3ata vis2o compreens2o e con,ecimento do >ai$ >or ter surgido do nada o >ai n2o foi sempre >ai$ >or ser cria12ocriatura o Dil,o n2o se assemel,a  su6stLncia do Criador (:IES !""% p$ #+$  meio século o 6ispo de Ale3andria dedicou9se a refutar diversas doutrinassu6ordinacionistas orientais e a criticar a interferQncia imperial nos assuntos da igreFa & $Ap-s a primeira e3comun,2o de Prio em conc0lio 6oa parte da comunidadecrist2 ale3andrina  dentre centenas de virgens 6ispos e uma multid2o do povo  passoua apoiar o pres60tero e a participar ativamente da defesa e dissemina12o do arianismo por todo o Oriente (@AGAHES !""< p$ %"B+$ O alvoro1o gerou uma divis2o entreos ,a6itantes de Ale3andria que tomaram partido de um lado ou outro da contenda$ Oconflito ariano produ.iu uma ampla mo6ili.a12o da popula12o ur6ana e deve ser interpretado a partir da perspectiva de um movimento social na medida em que os personagens envolvidos nas querelas utili.avam de todos os meios dispon0veis  incluindo a violQncia sim6-lica e f0sica  com o intuito de alterar a conFuntura pol0tico9religiosa na qual se encontravam (ETRIGER !""< p B*+$ Essa mo6ili.a12o  religiosa social e pol0tica  incluiu imperadores mem6ros do episcopado e a popula12our6ana visto que as prega15es do pres60tero mudaram o modo com que diversos gruposcrist2os conce6iam 4eus$ Como sendo uma igreFa multiforme ,06rida e ,eterogQnea acomunidade crist2 sofreu divis5es e suscitou um engaFamento )  popular  inicialmente nacidade de Ale3andria #  e posteriormente nas principais cidades do Oriente 9 a partir dasdiscordLncias lit?rgicas que foram surgindo a partir da década de =!" (@AGAHES!""< p$ %"#+$ Em vista da crescente tens2o dentro das comunidades crist2s e do perigo pol0ticoque os dissensos religiosos constitu0am 9 ao menos potencialmente  o imperador Constantino iniciou uma agenda pol0tico9religiosa para definir uma ortodo3ia 4  Atan/sio era a favor do distanciamento entre as esferas seculares e eclesi/sticas sendo que o imperador crist2o deveria Jdar a César o que é de César e a 4eus o que é de 4eusM F/ que essa interferQncia significaria uma apropria12o da autoridade espiritual do episcopado$ 5  o 6reve artigo  Arianism as a Social Phenomenon – The Spreading of a Heresy Outside the Elites  Astrid Sc,ml.er (!"%# p$ #+ o6serva trQs est/gios de popularidade em rela12o ao arianismo em seus  primeiros anos$ A primeira etapa é so6re User vistoUK reuni5es e assem6leias aconteceram nos Lm6itos  privado e p?6lico em casas e em mercados$ A segunda etapa é so6re User ouvidoUK temos sugest5es de simplifica15es m?sicas e e3plana15es$ A terceira etapa constitui9se em User apoiadoU em que os conc0lios elei15es episcopais e mo6ili.a15es pol0ticas podem ser vistos como atos de propaganda$ 6  A respeito do in0cio do desenvolvimento do conflito nas cidades orientais Ramon TeFa (%<<<  p$ %)=+ afirma que o cristianismo eg0pcio tin,a fortes srcens influenciadas pelo gnosticismo e  pelas doutrinas su6ordinacionistas$ Apenas na segunda metade do século II que as igreFas eg0pcias so6 os esfor1os de Clemente de Ale3andria e Or0genes integraram9se s comunidades crist2s trinit/rias de outras regi5es do Oriente$  (CA@ERO %<<& p$ !!' @O4OI !""% p$ )"+$ Ele 6uscava portanto umconsenso nos Lm6itos religioso e secular e essa concordLncia encontrava em sua pessoao fator de unifica12o$ O imperador esta6eleceu em =!& que os assuntos da igreFa seriamdiscutidos e resolvidos em conc0lios eclesi/sticos dando a si mesmo a Furisdi12o deapela12o dos conc0lios e a prerrogativa de convoca12o dos mesmos$ Os conc0lios antesindependentes tornaram9se comiss5es de inquérito imperiais sendo essa associa12oentre tais reuni5es e o poder do Estado cada ve. mais profunda nos anos seguintes(7OES %<&* p$ %"*' @ARVIA !""B p$ <)+$ A convoca12o do conc0lio de iceia por Constantino em =!) foi parte desse processo de oficiali.a12o das quest5es eclesi/sticas como pertencentes  esfera pol0tica$Ao adotar a defini12o de consu6stancialidade entre >ai e Dil,o no credo niceno termo promulgado com pesar e so6 press2o imperial por muitos 6ispos orientais queconsideraram esse termo n2o9606lico o Conc0lio n2o consegue fec,ar o de6ateteol-gico de modo que a doutrina de Prio continuaria em plena e3pans2o dentro dascomunidades orientais agora por meio de divis5es (ETRIGER !""< p$ =<+$ Asdiversas interpreta15es entre os signat/rios do credo e a falta de interesse deConstantino em garantir um acordo doutrinal entre os 6ispos na sequQncia do conc0liotornou o credo de iceia e o aparente consenso de =!) irrelevantes$ (EC;:ITH!""* p$ !"+$ Ap-s o Conc0lio de iceia Atan/sio e seus compan,eiros n2o estavam maisdispostos a 6uscar um consenso ou até mesmo comunica12o com os arianos$ N certo queos nicenos  infle30veis e insoci/veis em rela12o aos 6ispos arianos  tornaram9se umo6st/culo  unidade e portanto o6Fetos de ira do imperador (GA44IS !"") p$ #!+$ Os 6ispos alin,ados  figura do 6ispo de Ale3andria geralmente n2o go.aram de apoioimperial ap-s o Conc0lio de iceia em vista da resistQncia s cont0nuas tentativas desu6scri12o de credos favor/veis  causa ariana e a recusa de comunicarem9se com os 6ispos apoiadores da pol0tica religiosa imperial principalmente o ariano Eusé6io de icomédia que e3ercia grande influQncia pessoal em Constantino e foi respons/vel pelas primeiras tentativas de deposi12o de Atan/sio (ARES !""& p$ BB+$ esseconte3to de tens2o dentro do episcopado oriental as quest5es doutrinais foram muitasve.es ofuscadas pelas rivalidades pessoais deslocando pol0ticas imperiais em umimpério dividido e marcado por manipula15es do poder imperial pelos mem6ros doepiscopado (HESS !""! p$ <)+$  Constantino morre em ==B e segue9se um per0odo de lutas internas pelo poder$Seus meio9irm2os e so6rin,os foram assassinados em Constantinopla poucos depois deseu falecimento e o império fica a cargo e3clusivamente de seus fil,osK ConstLncio IIConstantino II e Constante (CARA !""< p$ )+$ Constantino II foi guardi2o do irm2omais novo Constante até a sua maioridade e entre ==B e =&" a It/lia Tr/cia @aced8niae Pfrica pertencentes a Constante eram controladas por seu irm2o mais vel,o$ A partir do momento em que Constante atinge a maioridade Constantino II recusa9se a devolver os territ-rios antes resguardados a ele afirmando que por ser o primogQnito deveriarece6er uma por12o maior do império$ Em =&" Constantino II é assassinado e sua por12o do império  G/lias ritLnia e HispLnia  foi entregue a Constante$A partir do momento em que a not0cia da morte de Constantino tornou9se p?6lica gan,ar a confian1a do novo imperador era crucial para a agenda clerical dos 6ispos nicenos e arianos e estes grupos passaram a agir para tirar o m/3imo partido dascircunstLncias dessa transi12o imperial$ Os euse6ianos que durante o governo deConstantino 6eneficiaram9se da pro3imidade e das cone35es com o poder imperial 6uscaram manter uma pro3imidade de ConstLncio II de modo a consolidar a influQnciaariana no Oriente (GAVO9SORIHO !""< p$ %!)+$ Os 6ispos do Ocidentegovernados por Constante assumiram em sua maioria uma posi12o fiel ao credo de iceia$ As IgreFas mais poderosas do oriente no in0cio do reinado de ConstLncio IIforam tra.idas so6 a influQncia de arianosK Constantinopla Heraclea Hadrian-polisNfeso Ancira Cesareia Antioquia e audiceia$ Os 6ispos de Antioquia destacavam9secomo predominantemente arianos enquanto os ale3andrinos so6 influQncia deAtan/sio adotaram uma posi12o maForitariamente nicena$ o conc0lio de Antioquia em=&% marcado por diversas acusa15es aos 6ispos nicenos ale3andrinos o semiarianismocome1a a tomar forma como um credo intermedi/rio entre o nicenismo e arianismo$ O partido dos semiarianos professava uma doutrina que se apro3imava da nicena masnegava o termo ousia  (su6stLncia+ visto que acreditavam na semel,an1a da su6stLnciaentre >ai e Dil,o em detrimento  consu6stancialidade$ A cr0tica dos semiarianos aonicenos 6aseava9se na ideia de que o termo ousia  denotava um significado que envolviauma personalidade separada do Dil,o$>oucos meses ap-s a morte de seu pai ConstLncio enfrentou seu primeirodesafio na conten12o de 6ispos recalcitrantes$ A morte de Ale3andre de Constantinopla
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