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Abrangências locais no jornalismo online do Tocantins (v.15, n.29, 2014)

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Resumo: Este artigo observa empiricamente a representatividade que o Portal CT, site jornalístico independente do Tocantins, dá para a diversidade local. O portal surge como um veículo autônomo e destacado das corporações tradicionais, cujo principal
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  171   171 Comunicação & Inovação, PPGCOM/USCSv. 15, n. 29 (171-185) jul-dez 2014 Resumo Este artigo observa empiricamente a representati-vidade que o Portal CT, site jornalístico indepen-dente do Tocantins, dá para a diversidade local. O portal surge como um veículo autônomo e des-tacado das corporações tradicionais, cujo princi- pal tema explorado está ligado à política local. Foram discutidos assuntos, como glocalização, os estágios do jornalismo on-line e as noções de informação de proximidade. O trabalho apresenta ainda dados que apontam para a predileção do site  por assuntos locais em detrimento de temas nacio-nais e o destaque para o conteúdo hiperlocalizado relacionado ao município de Palmas. Palavras-chave: Jornalismo online; cobertura lo-cal; Tocantins. Abstract This article empirically observed the represen-tativeness that the Portal CT, an independent  journalistic website of the state of Tocantins, Brazil, gives to local diversity. The portal ap- pears as an autonomous vehicle, detached from traditional corporations, whose main explored theme is connected to local politics. Issues were discussed, such as glocalization, the stages of online journalism and the notions of information of proximity. The work also presents data point-ing to the predilection of the website for local rather than national issues and the focus on the hiperlocal content related to the city of Palmas. Keywords:  Online Journalism; Local Coverage; Tocantins. Abrangências Locais no Jornalismo Online do Tocantins  Liana Vidigal Rocha Doutora e Mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP. Jornalista diplomada. Professora-adjunta do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Tocantins (UFT – Palmas). lividigal@uol.com.br  Sérgio Ricardo Soares Mestre em Letras (UFPE), graduado em Comunicação Social – Jornalismo (UFPE) e pro-fessor assistente do curso de Comunicação Social – Jornalismo (UFT – Palmas). sergior.soares@uol.com.br  Valmir Teixeira Araújo Mestre em Desenvolvimento Regional (UFT – Palmas). Graduado em Comunicação Social – Jornalismo (UFT - Palmas). valmiraraujo09@hotmail.com Recebido em 27 de julho de 2014. Aprovado em 11 de setembro de 2014 S COPES  P LACES   IN   THE  O NLINE  J OURNALISM   OF  T OCANTINS , B RAZIL A RTIGO  O RIGINAL 12_[Art7].indd 17106/11/14 17:25  172 Comunicação & Inovação, PPGCOM/USCSv. 15, n. 29 (171-185) jul-dez 2014 Liana Vidigal Rocha, Sérgio Ricardo Soares & Valmir Teixeira Araújo Introdução “O nosso lado é o seu”. Aparentemente apenas mais uma frase de efeito, este é o slo-gan sustentado pelo Portal CT, um dos principais meios de informação do Tocantins, um es-tado que revela um mercado midiático centralizado nas mãos de poucos grupos e uma relação intricada com o poder público. A parcialidade nem sempre sutil do jornalismo local, resultado disto, justica um veículo que se quer independente a usar o lema óbvio da sua função social. Mais além: colocando-se o cursor sobre o slogan da página, abre-se uma caixa de mensagem com os dizeres “O maior site de notícias do Tocantins”. A despeito da vericação rigorosa deste título, o Portal CT atribui a si um papel de destaque na cobertura do estado na sua tota-lidade, estado este estabelecido como uma unidade geopolítica há menos de três décadas, ain-da em busca de sua identidade cultural e muito diverso em vários aspectos socioeconômicos. Se, portanto, é um desao tratar o Tocantins como uno, buscamos neste texto ob -servar empiricamente a representatividade que o site dá para a diversidade local. A esco-lha do Portal CT para tal investigação deve-se, além da sua boa audiência e repercussão, ao fato de ser o primeiro site com teor jornalístico (aberto em 2005) sem ligação com as oligarquias midiáticas locais – o que não signica, a priori ,   imparcialidade. Para esta tarefa, centramos a discussão na editoria Estado, focada, sobretudo, em pautas políticas. Uma amostragem quantitativa foi selecionada – todas as notícias de cinco dias dos meses de junho e julho de 2013 – e submetida a procedimentos de análise de conteúdo. Para tanto, optamos pela classicação prévia das notícias em três categorias: as que tratam de  pautas da capital Palmas, as que informam sobre o interior do estado e aquelas que dizem respeito ao Tocantins como um todo. Emboraessa análise seja breve, procuramos levantar com este texto questões sobre a conguração imaginária do lugar construída pelo jornalismo. Além disso, debater as es -  pecicidades da modalidade on-line deste jornalismo possibilita pôr em xeque o próprio conceito de local, que precisa ser revisitado. Notas históricas do Tocantins A reivindicação de um Tocantins como unidade emancipada remonta a séculos. Permanece ainda hoje o cultivo da memória das lutas de Joaquim Teotônio Segurado, militar que, no início do século XIX, liderou uma primeira revolta separatista do norte de Goiás contra a administração desta capitania. Já nesta época, a motivação centrava-se nas más con-dições econômicas e sociais da região, distante e isolada do centro administrativo goiano, ao sul. A partir da década de 1960, o nome de José Wilson Siqueira Campos passa a despontar 12_[Art7].indd 17206/11/14 17:25  173 Comunicação & Inovação, PPGCOM/USCSv. 15, n. 29 (171-185) jul-dez 2014Abrangências Locais no Jornalismo Online do Tocantins capitaneando a campanha da separação. Em 1985, como deputado federal, ele consegue do Ministério do Interior a instituição de um comitê para estudar a separação. O objetivo central é alcançado com a Constrituição de 1988, que determina a divisão de Goiás, garantindo a Siqueira Campos o posto de primeiro governador do Tocantins (C ARVALHO , 2002).O estabelecimento de uma nova unidade da Federação – um novo “lugar” – re- quisita, para além das justicativas factuais políticas e econômicas, a construção de um imaginário que gere um sentimento de pertencimento às populações outrora goianas e agora tocantinenses. Poderíamos aplicar, em um âmbito estadual, o que Stuart Hall fala sobre as culturas nacionais, compostas não apenas de instituições culturais, mas também de símbolos e representações. Uma cultura nacional é um discurso  – um modo de construir sentidos que inuencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos. (...) Esses sentidos estão contidos nas estórias que são contadas sobre a nação, memórias que conectam seu presente com seu pas -sado e imagens que dela são construídas (2001, pp. 50-51). Iniciativa simbólica imediata na busca desta identidade foi a alteração do nome de diversos municípios que faziam referência ao Norte de Goiás. Assim, por exemplo, Colinas de Goiás e Miracema do Norte foram rebatizadas como Colinas do Tocantins e Miracema do Tocantins. Em paralelo, ainda hoje prossegue o anseio pela denição da música local, da culinária local etc. Mas nenhuma ação para rmar a presença do Tocantins no mapa brasileiro foi tão contundente quanto a decisão de construir Palmas. À altura da emancipação, o estado contava com outras cidades de médio porte capacitadas para acolher a capital, como Porto  Nacional, Gurupi ou Araguaína. Porém, a opção recaiu sobre surgimento de uma nova cidade, localizada no exato centro do estado, instrumento de desenvolvimento de uma região pouco assistida pelo poder público. Lúcia Moraes (2006) se contrapõe, no entanto, a essa narrativa ocial, identicando em Palmas a culminância de um processo deno -minado “marcha para o Oeste”, uma estratégia para o avanço sobre o interior profundo do país através da implantação de capitais planejadas, modernas em sua aparência urba-nística, porém imbuídas de políticas conservadoras e excludentes de ocupação do solo. O fenômeno se iniciaria na década de 1930 com Goiânia e ganharia proporções nacionais com Brasília, nos anos 1960. Três décadas mais tarde, Palmas prolongava a marcha para a fronteira com a Amazônia.Concebida dentro de preceitos que uniam algo do Modernismo de Brasília ao con-ceito de cidade-jardim integrada ao meio ambiente, Palmas, logo nos seus primeiros anos, 12_[Art7].indd 17306/11/14 17:25  174 Comunicação & Inovação, PPGCOM/USCSv. 15, n. 29 (171-185) jul-dez 2014 Liana Vidigal Rocha, Sérgio Ricardo Soares & Valmir Teixeira Araújo foi povoada por massas de imigrantes das mais diversas partes do Brasil, instalados em uma infraestrutura urbana precária que permanece em formação e crescimento até hoje. A população, já tendo ultrapassado 240 mil habitantes em 2012 (segundo dados do IBGE), espalha-se irregularmente em um município com mais de 2000 km², fazendo que muitas das suas superquadras (com 700 metros de lado) permaneçam ainda vazias, embora con-vivam com uma arraigada especulação fundiária. O cenário midiático tocantinense Em um lugar com os problemas estruturais típicos da breve cronologia, não sur- preende que a mídia tocantinense compartilhe destas limitações. Não obstante, suas carac- terísticas peculiares nos requisitam rascunhar uma História dos principais momentos da comunicação social local. Milton Santos propunha a observação das técnicas – entendidas como intervenções relacionais humanas na natureza – como parâmetro para analisar a ida- de de um lugar. Nessa sugestão, paira a ideia que, para além da idade cientíca, cronológi - ca, essas técnicas e seus objetos desvelam um uso especíco em cada território, estabele - cendo formas de vida e, portanto, modicando a própria existência do território. Se, para o mesmo autor, é “o lugar que atribui às técnicas o princípio de realidade histórica” (S ANTOS , 2008, p. 58), arriscamos imaginar a prática midiática, enquanto técnica, como um caso especial, capaz de proporcionar dialeticamente a existência histórica (e imaginária) ao lugar. Este fenômeno é particularmente importante no Tocantins – e, de forma mais enfá-tica, sua capital –, iniciou seu tempo como unidade da Federação em uma época em que os recursos técnico-midiáticos de registro audiovisual estavam em plena disseminação globalizante. Não por outro motivo, são tantos as fotos e os vídeos dos primeiros instantes de Palmas (como por certo nenhuma outra cidade brasileira tenha tido a oportunidade).Em junho de 2013, o Tocantins passou a contar com sua versão estadual para um dos principais portais noticiosos do Brasil, o G1 (http://g1.globo.com/to/tocantins/). Como de praxe, a entrada no ar pautou a programação da TV Anhanguera, retransmisso-ra local da Rede Globo, do mesmo grupo do G1, sob o discurso festivo de que o estado estaria multiplicando seus veículos. Esse episódio, embora muito pontual, possibilita compreender um traço marcante sobre a realidade midiática local: o caráter de oligopó -lio da comunicação. Assim, mesmo com um número considerável de veículos de mas-sa, 1  a mídia local encontra-se distribuída entre poucos grupos empresariais ou famílias. 1 Dados de 2007 do Ministério das Comunicações já indicavam a existência de 111 emissoras comerciais de rádio e TV, 67 rádios comunitárias, duas rádios educativas e uma TV educativa. Disponível em <http://www.mc.gov.br/radiodifusao/dados-de-outorga/23453-dados-por-uf-tocantins>. Acesso em 1 jul 2013. 12_[Art7].indd 17406/11/14 17:25  175 Comunicação & Inovação, PPGCOM/USCSv. 15, n. 29 (171-185) jul-dez 2014Abrangências Locais no Jornalismo Online do Tocantins O estudo dos meios de massa tocantinenses, além do mais, precisa sempre levar em conta o cenário de Goiás, cujos veículos já tinham atuação no norte do estado antes da separação. São os casos do Consórcio de Empresas de Radiodifusão e Notícias do Estado de Goiás (Cerne), que retransmitia o sinal da TV Bandeirantes em Gurupi e Araguaína; e da TV Anhanguera, que funcionava em Araguaína desde a década de 1970, retransmitin-do a programação da Globo e da Anhanguera de Goiânia.A presença do poder público no setor se inicia com a criação, em 1989, da Companhia de Comunicação do Estado do Tocantins (Comunicatins), empresa de direito  privado (de economia mista), mas com o governo do estado como acionista majoritário. Em 1996, a Comunicatins dá lugar ao Instituto Dom Alano, entidade de direito público, sob a forma de autarquia, que atuaria em conjunto com a Universidade do Tocantins (Unitins) para explorar os serviços de Rádio e TV. No ano seguinte, devido à falta de recursos e objetivando regularizar legalmente o serviço de radiodifusão sob a tutela do Estado, o Instituto é transformado na Fundação Unitins, autarquia com autorização para executar o serviço com ns educativos. Este processo gerou a Rádio Palmas 96,1 FM, que entrou no ar em 2000 em caráter experimental; e a TV Palmas, com transmissões a  partir de 2003, que tempos depois passou a se chamar Rede Sat e mais recentemente TVE Tocantins. Ampliando o arco regional, a TV estatal tem sinal captado por 10 municípios maranhenses limítrofes, como Porto Franco (TV Difusora) e Imperatriz (TV Nativa). No setor privado, a Organização Jaime Câmara (OJC) domina os meios locais.  Nascido em Goiânia, o grupo lançou em 1938 o jornal O Popular  . Em 1954, a OJC abria a Rádio Anhanguera e, em 1963, iniciava as transmissões da TV Anhanguera. Quarta alia -da da Rede Globo em volume de receita, a TV Anhanguera expandiu-se para o Tocantins, inaugurando sua unidade de Palmas em 1995. Seus principais produtos locais são os telejornais “Bom Dia Tocantins” e “Jornal Anhanguera” 1ª e 2ª edições (nos moldes do  jornalismo local da Globo), o “Jornal do Campo” e o programa “Frutos da Terra”, pro-duzido em Goiás. De acordo com a empresa de pesquisa M&W (2010), somente na ca- pital a emissora possui 62% da audiência no horário das 6 a 0h. Outros veículos da OJC atualmente em funcionamento são a Rádio Araguaia FM, a CBN Tocantins, o Jornal do Tocantins (impresso e on-line) e o jornal Daqui Tocantins.Fundado em 1979 para atender ao norte goiano, O Jornal do Tocantins  circulou no formato tabloide até 1981, quando foi fechado sob alegação de inviabilidade econômica e falta de prossionais dispostos a atuar na região. Seu retorno só ocorreria com a criação do estado, ressurgindo em formato  standard  , inicialmente com 12 páginas. Desde então, rmou-se como o impresso local de maior circulação. Apenas na década de 2010 lançou sua versão on-line, que até o presente é exclusiva para assinantes. Em 2013, o grupo criou 12_[Art7].indd 17506/11/14 17:25
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