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Ambiente ecológico e mundo vivido: aproximações possíveis entre a fenomenologia de Merleau-Ponty e a Filosofia ecológica

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Resumo O problema mente-corpo esteve na base das discussões filosóficas ao longo de grande parte da história do pensamento ocidental. Com relação à Filosofia da Mente, inúmeros foram os trabalhos que divergiram quanto à separação ou não entre a mente
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   78 Ambiente ecológico e mundo vivido: aproximações possíveis entre a fenomenologia de Merleau-Ponty e a Filosofia ecológica A!"#$A !A%&'A(A" "AM) F*""*#"A +   "esumo O problema mente-corpo esteve na base das discussões filosóficas ao longo de grande parte da história do pensamento ocidental. Com relação à Filosofia da Mente in!meros foram os trabalhos "ue divergiram "uanto à separação ou não entre a mente e o corpo a constituição de ambos ou mesmo a e#ist$ncia do  primeiro. %esse trabalho abordaremos a posição de Maurice Merleau-&ont' "uanto ao dualismo em sua obra  A Fenomenologia da Percepção  sua sa(da  para super)-lo e a intr(nseca relação do homem com o mundo. *uanto a este !ltimo aspecto buscaremos estabelecer um di)logo com a ideia de ambiente ecológico  abordada pela Filosofia +cológica apontando os fatores em comum entre os dois pensamentos filosóficos. Palavras-c,ave , Filosofia da mente ualismo %ão-representacionista. Abstract /he mind-bod' problem 0as the basis of philosophical discussions over much of the histor' of 1estern thought. 2egarding the &hilosoph' of Mind numerous 0ere the 0or3s that diverged as the separation or not bet0een the mind and the bod' the formation of both or even the e#istence of the first. 4n this article 0e 0ill discuss the position of Maurice Merleau -&ont' as the dualism in his 0or3 /he &henomenolog' of &erception its output to overcome it and the intrinsic relationship bet0een man and the 0orld. 5s for the latter 0e 0ill see3 to establish a dialogue 0ith the idea of ecological environment addressed b' the +cological &hilosoph' pointing out the common factors  bet0een the t0o philosophical thoughts. ey .ords , &hilosoph' of mind ualism %o-representationalist. 6   A!"#$A !A%&'A(A" "AM) F*""*#"A  7 mestranda em Filosofia na 8niversidade +stadual &aulista 8%+9& Faculdade de Filosofia e Ci$ncias Campus Mar(lia.   79 5mbiente +cológico e Mundo :ivido, o ser inserido no mundo ispon(vel em https,;;alanelealteste.0ordpress.com;<=>?;=@;<<;a-relacao-intersubAetiva; #ntroduç/o Maurice Merleau-&ont' foi um dos filósofos da tradição fenomenológica "ue mais conhecia de psicologia o "ue acabou por influenciar significativamente toda a sua concepção sobre a relação homem e mundo. Com relação ao pressuposto dualista cartesiano Merleau-&ont' sustenta "ue não h) separação entre mente e corpo e sim a e#ist$ncia do trinBmio mente-corpo-mundo como vinculado e em constante dinmica de reciprocidade. &ara tanto o "ue h) 7 a e#ist$ncia de um suAeito incorporado no mundo imerso no mundo e não colocado nele. 5 viv$ncia desse suAeito se mescla à te#tura desse mundo como define o termo da tradição heideggeriana  Dser no mundoE "ue o e#periencia como campo  pr)tico e significativo. 5trav7s da e#peri$ncia este DsuAeito 7 suAeito da  percepção e deve se perceber no mundo em estado de começoE 2+49 <==@ p. >=GH. &ara o filósofo o mundo  percebido 7 moldado pela consci$ncia e impacta a e#ist$ncia do ser por meio da  percepção. /al percepção desempenha   80 um papel crucial na intermediação entre esse suAeito e o mundo sendo poss(vel a esse ser valorar e significar tudo o "ue o cerca atrav7s dela. D&ortanto não 7  preciso perguntar-se se nós percebemos verdadeiramente um mundo 7 preciso diIer ao contr)rio, o mundo 7 a"uilo "ue nós percebemosE M+2J+58-&O%/K >LLL p. >H. 9ua ação  perceptual se d) atrav7s do corpo de modo sinest7sico onde os cinco sentidos se articulam produIindo valor  para o mundo. &odemos observar uma unicidade na filosofia de Merleau-&ont' "ue supera os dualismos cl)ssicos da raIão "ue opõe obAetividade e subAetividade mente e corpo e o suAeito e o mundo. 5 cone#ão arraigada entre as coisas est) na base de seu pensamento e Dse realiIa a cada instante no movimento da e#ist$nciaE M+2J+58-&O%/K >LLL p. >>H. +#ist$ncia "ue 7 ressignificada sensivelmente atrav7s do corpo imerso no meio "ue atua como uma esp7cie de Dsuperf(cie de contatoE com o mundo onde tudo mente-corpo-mundo interage e dialoga entre si numa esp7cie de dança "ue nada mais 7 do "ue um movimento em si mesmo. &ois Dpara Merleau-&ont' a e#peri$ncia de sentir 7 vivida como espaço de tensão no próprio corpo e ao mesmo tempo entre o corpo e mundoE 5N5/ C5M4%5 <=>< p. P<PH. 5ssim a reciprocidade corpo-mundo se constitui como fundamental para entender a ação desse ser situado "ue interfere no meio e "ue se completa nele. 5ssim Da relação "ue tenho com meu mundo vivido 7 uma relação de iner$ncia de descoberta e pela "ual o mundo e#iste para mim e eu e#isto nele efetivamenteE 5Q+:+O C5M4%5 <=>R p. <<H. +sse mundo acess(vel pela percepção e apreendido pelos sentidos se constitui como campo de e#peri$ncia do ser. :ale ressaltar "ue a apreensão desses sentidos se trata de uma ação irrefletida onde o meio convoca o ser a agir e de maneira nenhuma se refere a um ato intelectual "ue passa pelo crivo do  Au(Io e da raIão refle#iva. essa forma  podemos observar o posicionamento de Merleau-&ont' "uanto à proemin$ncia do intelectualismo e de seu contraponto habitual o empirismo. &ara o intelectualismo o Au(Io 3antiano sustenta a posição do ser no mundo "ue age atrav7s do uso refle#ivo da raIão ao se postar diante das coisas com $nfase no mundo obAetivo. S) o empirismo  privilegia a sensação "ue emerge na articulação entre est(mulo-resposta e conduI o suAeito em sua atuação no meio. Contudo Merleau-&ont' vai al7m de ambos ao privilegiar a percepção  pois Dse a percepção interpreta ela só o faI a partir do mundo com sentido sens(vel anterior a "ual"uer Au(IoE 2+49 <==@ p. >=@H. 9eu pensamento rompe com o dualismo presente nas duas teorias pois estabelece uma relação entre mente-corpo e ser-mundo "ue não pode ser contemplada apenas  pelo Au(Io e nem apenas pela sensação est(mulo-resposta. 5 interação do ser com seu meio ultrapassa o papel de ação-reação para se ancorar na reciprocidade ininterrupta entre os polos onde   Dsó na unidade do obAetivo com o subAetivo podemos pBr o ser no mundo e o seu mundo vivido correlacionados um ao outroE 5Q+:+O C5M4%5 <=>R p. >GH. 5ssim podemos observar "ue a "uestão da objetividade versus  subjetividade  se coloca como ponto de refle#ão. 5 visão obAetiva do mundo na "ual estão alicerçados o intelectualismo e o empirismo vão de encontro à  percepção de mundo adotada por Merleau-&ont'. O "ue faltava ao empirismo era a cone#ão interna entre o obAeto e o   81 ato "ue ele desencadeia. O "ue falta ao intelectualismo 7 a conting$ncia das ocasiões de pensar. %o primeiro caso a consci$ncia 7 muito pobre no segundo 7 rica demais para "ue algum fenBmeno possa  solicitá-la. O empirismo não v$ "ue  precisamos saber o "ue  procuramos sem o "ue não o  procurar(amos e o intelectualismo não v$ "ue precisamos ignorar o "ue procuramos sem o "ue novamente não o procurar(amos M+2J+58-&O%/K >LLL p. RPH. esse modo tanto o intelectualismo "uanto o empirismo são incompletos  por não contemplarem o papel  primordial da percepção na articulação entre o ser e o mundo. &ercepção essa "ue transcende a mera apreensão do mundo pelo suAeito indo al7m pois Destamos falando de uma e#peri$ncia marcada pela reversibilidade da e#peri$ncia de sentir "ue significa diIer "ue "uando sinto algo sinto tamb7m a mim mesmoE 5N5/ C5M4%5 <=>< p. P<PH. &ara tal deve-se  privilegiar a percepção em seu sentido mais subAetivo capaI de captar as nuances presentes na interação ser-mundo-ser para al7m de seus aspectos f(sicos na "ual Do sentir 7 esta comunicação vital com o mundo "ue o torna presente para nós como lugar familiar de nossa vida. T a ele "ue o obAeto percebido e o suAeito "ue percebe devem sua espessuraE M+2J+58-&O%/K >LLL p. @?H. O corpo desempenha seu papel de iner$ncia ao mundo percebido e vivenciado por ele atrav7s da apreensão sensorial em uma intr(nseca relação de comunicação 5Q+:+O C5M4%5 <=>RH. essa forma a concepção de mundo vivido se dinamiIa por estar arraigada à viv$ncia da"uele "ue o habita como apresentado por Merleau-&ont', DO mundo 7 não a"uilo "ue eu  penso mas a"uilo "ue eu vivo eu estou aberto ao mundo comunico-me indubitavelmente com ele mas não o  possuo ele 7 inesgot)vel M+2J+58-&O%/K >LLL p. >?H. +sse mundo delimita e convoca o ser a agir de determinado modo o "ue acaba por configurar seu es"uema corporal sem o au#(lio de um processo refle#ivo para tal. %esse caso o corpo atua como Dinstrumento para a compreensãoE "ue  possibilita ao suAeito se inserir na espessura do mundo pois 7 atrav7s dele "ue o emaranhado de significados se consolida na viv$ncia do ser. Como  parte inerente da dinmica perceptiva o corpo ao mesmo tempo em "ue interpreta e desvela o mundo interpreta a si próprio pois Dora obAetivo ora suAeito 7 a e#pressão da ambival$ncia de um ser "ue se recusa a todo instante ser apenas empírico ou apenas intelectivo E 5Q+:+O C5M4%5 <=>R p. >GH. S) o mundo percebido e decifrado pela  percepção possui a viv$ncia como seu campo de atuação in!meras veIes concebido a cada ato e#periencial do corpo nesse mundo denotando sempre a malha de articulação e cone#ão poss(vel entre os seres "ue compõem o espaço. +spaço esse "ue se mostra vol)til fruto de viv$ncias precedentes e ulteriores apreens(veis na teia significativa do ambiente. +sse dinamismo temporal se mostra acess(vel pois Do presente vivido encerra em sua espessura um  passado e um futuroE M+2J+58-&O%/K >LLL p. G>H. 9endo assim a  própria noção de ambiente;espaço pode ser ressignificada e com isso o próprio lugar das coisas "ue o constituem. Mais uma veI suplanta-se a ideia obAetiva de espaço para emergir um conceito de ambiente subAetivo forAado na relação ser-mundo atrav7s da percepção.   82 O espaço não 7 o ambiente real ou lógicoH em "ue as coisas se dispõem mas o meio pelo "ual a  posição das coisas se torna poss(vel. *uer diIer em lugar de imagin)-lo como uma esp7cie de 7ter no "ual todas as coisas mergulham ou de conceb$-lo abstratamente com um car)ter "ue lhes seAa comum devemos pens)-lo como a pot$ncia universal de suas cone#ões M+2J+58-&O%/K >LLL p. <@H. 5trav7s do corpo torna-se poss(vel captar a perspectiva espacial e temporal do ambiente com sua historicidade em um movimento perceptivo "ue conecta o ser ao mundo vivido e às outras consci$ncias "ue dele tamb7m faIem  parte. 5 viv$ncia mais uma veI  propicia a intercone#ão dos seres entre si e com o mundo produIindo significados "ue só ela 7 capaI de fornecer. Ambiente ecológico e mundo vivido: aproximações possíveis O car)ter de reciprocidade entre o ser e o mundo na concepção fenomenológica de Merleau-&ont' pode ser vislumbrado no ambiente ecológico proposto pela Filosofia +cológica. 5o abordar a relação entre percepção-ação al7m das  poss(veis informações dispon(veis no meio ambiente para a ação do suAeito essa teoria defende uma visão sist$mica "ue abarca todas as esferas "ue constituem o mundo;ambiente ecológico. %esse sentido assim como o mundo vivido merleaupontiano  o ambiente ecológico transcende o obAetivismo abrangendo todos os aspectos da viv$ncia humana "ue não se limitam apenas ao aspecto racional. U...V na concepção racionalista tradicional o indiv(duo apenas observa a natureIa de maneira racional colocando em segundo  plano os aspectos corpóreos emocionais e informacionais os "uais se instauram na sua relação com o mundo. %essa concepção o indiv(duo est) parcialmenteH dissociado do meio ambiente e do tempo vivido-e#perienciado MO2O%4 WO%Q5J+9 <=>= p. ><PH. essa forma tanto na abordagem ecológica "uanto na fenomenologia de Merleau-&ont' operam-se a vinculação dos seres com o ambiente "ue supera o dualismo cartesiano pois assim como no mundo vivido tal ambiente 7 constitu(do na intercone#ão entre os seres entre si e entre estes e o mundo. D+m particular a reciprocidade ecológica entre a mente e o mundo f(sico e#plicita a relação entre ambos e remove a necessidade de "ual"uer separação dualistaE   MO2O%4 WO%Q5J+9 <=>> p. R<H.   5l7m disso Da visão sist$mica e#prime a inseparabilidade entre as partes "ue formam uma totalidadeE MO2O%4 WO%Q5J+9 <=>= p. ><GH. /otalidade "ue não se configura como a mera reunião de partes mas sim por uma conAunção "ue possui significado en"uanto um todo coeso no "ual os seres participam. 5ssim como afirma Merleau-&ont' esse todo-mundo 7 apreens(vel atrav7s dos sentidos pelo corpo do Dser no mundoE. +m D+cological &hilosoph'E avid Jager afirma "ue essa inseparabilidade se constitui Dpor"ue são identificados com relação um ao outroE MO2O%4 WO%Q5J+9 <=>= p. ><GH. essa maneira o conceito de Dser no mundoE evoca uma imersão na estrutura espessura do mundo "ue denota uma correlação entre este ser e o ambiente. Correlação esta mediada pela  percepção sensorial da"uilo "ue o ambiente fornece como informação dispon(vel para ação ou melhor diIendo na convocação "ue este mundo
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