of 20

Aquela moça que fui: considerações sobre a velhice feminina em Milamor, de Lívia Garcia-Roza. In: GOMES, Gínia Maria. (Organizadora). (Des)Contextos da Narrativa Brasileira Contemporânea. 1ed.Frederico Westphalen: URI, 2017, v. 1, p. 129 a

16 views
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Share
Description
The present work seeks to analyze the novel Milamor (2008), by Livia Garcia-Rosa, which brings a character-narrator in the process of becoming elderly. It is intended to verify the history and dilemmas of those who, like the protagonist, are just
Tags
Transcript
   Aquela moça que fui: considerações sobre a  velhice feminina em Milamor  , de Lívia Garcia- Roza Cristiane da Silva AlvesO presente ensaio faz parte de um projeto de pesquisa mais amplo, que investigou a voz dos velhos na narrativa ficcional brasileira da primeira década do século XXI 1 . Busca-se, neste momento, analisar o romance  Milamor   (2008), de Livia Garcia-Rosa, que traz uma personagem-narradora em vias de tornar-se idosa. Pretende-se verificar a história e os dilemas de quem, como a protagonista, está recém adentrando a velhice, reconhecida especialmente pelo olhar do outro. Intenta-se averiguar em que medida a voz das mulheres envelhecidas está presente, bem como as questões relacionadas à velhice e/ou ao envelhecimento, assim como a inserção (ou exclusão) das mulheres de idade avançada no cenário atual. Para dar suporte à análise, recorre-se aos estudos de Simone de Beauvoir, Mirian Goldenberg, Clarice Ehlers Peixoto, Alda Britto da Motta, Pierre Bourdieu, Guita Grin Debert e Stuart Hall, entre outros.Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2009,  Milamor   traz à tona uma temática pouco abordada nas obras literárias: a velhice feminina. É sabido que a população brasileira vem envelhecendo 2  e, também, que as mulheres são maioria entre os que ultrapassam os 60 anos. Entretanto, no que diz respeito à literatura, a tendência parece ser um pouco diversa. Em pesquisa acerca do personagem do romance brasileiro contemporâneo, mapeando obras publicadas entre 1990 e 2004, Regina Dalcastagnè (2005, p.37) demonstrou 1  É parte de um dos capítulos de minha tese de doutorado, recentemente defendida na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sob o título Novos tempos, vozes antigas: os narradores velhos na narrativa ficcional brasileira do século XXI ou de como ficou difícil ouvir os velhos ou de como a ficção enfrenta o tabu da velhice  . 2  De acordo com o Censo Demográfico de 2010 (IBGE, 2010), a população brasileira de hoje é de 190.755.799 milhões de pessoas, sendo que 7,4% da população têm mais de 65 anos, contra 4,8% verificados em 1991. DES CONTEXTOS DA NARRATIVA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA_Ver 09-01-17.indd 12909/01/2017 11:44:09   Aquela moça que fui: considerações sobre a velhice feminina em Milamor, de Lívia Garcia-Roza~ | 130 | ~ que somente 8,5% das personagens femininas localizadas nos textos foram representadas em sua velhice. A representação de homens velhos também foi pequena, mas ainda superior, correspondendo a 9,7%. A questão, evidentemente, é relevante e demanda um olhar mais apurado. É oportuno mencionar que Mirian Goldenberg (2012) desenvolveu na cidade do Rio de Janeiro pesquisa com grupos de mulheres na faixa etária de 50 a 60 anos, pertencentes às camadas médias e altas, e constatou que, apesar dos avanços e conquistas que vão desde a realização profissional até a liberdade na vida afetiva e sexual, “a ênfase na decadência do corpo, na falta de homem e na invisibilidade social é uma característica marcante no discurso das brasileiras” (GOLDENBERG, 2012, p.50). Sobressaem em seus depoimentos “as perdas, os medos e as dificuldades associadas ao envelhecimento” (GOLDENBERG, 2012, p.51), questões importantes que, no entanto, raramente são contempladas na literatura. A invisibilidade de que se queixam as mulheres em seus discursos estende-se à produção literária, que omite ou diminui a presença da mulher envelhecida e em geral não lhe concede o papel de narradora. O livro de Garcia-Roza colabora para amenizar este quadro, à medida que delineia e dá voz a uma mulher às vésperas de completar 60 anos, trazendo à luz impasses, transformações e dilemas comuns, em maior ou menor medida, a mulheres que, assim como a personagem da ficção, estão adentrando a velhice e, do ponto de vista legal, em vias de tornarem-se “idosas”. Dividido em vinte capítulos curtos, o enredo do romance é organizado em torno do cotidiano de Maria, protagonista e narradora, oscilando entre os problemas e as preocupações imediatas que ela vivencia e os acontecimentos pretéritos que lhe vêm à lembrança, exibindo para o leitor alguns fragmentos da sua trajetória, bem como pessoas e momentos marcantes, vividos desde a infância até o momento da narração. Companheiras de longa data   Após a morte do segundo marido, a protagonista passa a morar com a filha caçula, Maria Inês, uma mulher jovem e atarefada, DES CONTEXTOS DA NARRATIVA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA_Ver 09-01-17.indd 13009/01/2017 11:44:09  Cristiane da Silva Alves~ | 131 | ~ com pouquíssima disponibilidade para dialogar e que, além disso, exerce um forte controle sobre a mãe, impedindo-a de tomar conta da própria vida. É através da filha e de suas atitudes, principalmente, que chega para Maria a consciência da velhice. Maria Inês lança sobre a mãe um olhar que ainda se faz presente em parte da sociedade e, em detrimento dos novos tempos e das constantes mudanças, apoia-se na ideia de que a mulher envelhecida é alguém que já cumpriu o seu papel e não tem muito mais a oferecer ou almejar. Para amenizar a solidão e a saudade dos que se foram, Maria se entrega à leitura de romances, bem como se ocupa em conversar com as amigas que conquistou ao longo dos anos. Estas, embora descritas pela narradora de maneira sucinta e um tanto estereotipada, sugerem ao leitor uma espécie de painel, exibindo algumas das distintas faces do amadurecimento ou da velhice feminina. Regina, grande amiga e confidente, é uma mulher divertida, quase dez anos mais nova que a protagonista e de temperamento bastante diferente do seu: “Com a idade que está, [...] ainda se envolve bastante. Tornou-se especialista em homens casados, segundo diz. [...] Além de ter feito plástica, Regina procura estar sempre atualizada com os termos da moda” (GARCIA-ROZA, 2008, p.20). É a representante de certo grupo de mulheres, especialmente das camadas médias e altas da sociedade, que investe tanto quanto possível na preservação da juventude, aderindo a toda sorte de técnicas e tratamentos estéticos em prol da manutenção corporal e encobrimento da velhice. Conforme Regina, “ser velha estava completamente fora de moda. – Totalmente out!  , minha cara! (GARCIA-ROZA, 2008, p.149). Por outro lado, Estela, a madrinha de 80 anos de Maria, é caricata, tediosa, ranzinza, constantemente às voltas com doenças (nem sempre reais): “Estela acha que vai morrer todos os dias” (GARCIA-ROZA, 2008, p.24), além de ser frequentadora assídua de bingos: “Estela gosta de jogar, e vive no bingo. Um dia fez uma confusão tão grande numa dessas casas, que precisou ser contida pelos seguranças” (GARCIA-ROZA, 2008, p.13). Não apenas em razão da idade avançada, mas por conta dos traços exagerados com que é exibida, remete o leitor aos piores estereótipos sobre as pessoas velhas, associadas frequentemente à caduquice, à excentricidade e/ou ao monólogo queixoso e persistente acerca de si mesmas. Cumpre DES CONTEXTOS DA NARRATIVA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA_Ver 09-01-17.indd 13109/01/2017 11:44:09   Aquela moça que fui: considerações sobre a velhice feminina em Milamor, de Lívia Garcia-Roza~ | 132 | ~ referir, contudo, que ela é a única entre as relações de Maria que não tem ninguém com quem contar: “A mãe de Estela, que fazia companhia a ela, tinha morrido com quase 100 anos...” (GARCIA-ROZA, 2008, p.25), o que explica, em parte, as atitudes um tanto fora do convencional, provavelmente um meio para atrair a atenção dos demais e não sentir-se tão só. Alice, por sua vez, não chega ao ponto de Estela, mas é mais velha que Maria e já sofreu um enfarte. Não teve filhos e o segundo marido, um piloto mais jovem que ela, tem uma filha com uma aeromoça, razão pela qual ela vive com ciúme. Como se não bastasse, depois de muito tempo de casada, ela se desespera com o que lhe acontece: “poucos acreditariam, mas se apaixonara pelo marido” (GARCIA-ROZA, 2008, p.35). A personagem representa, a seu modo, uma parcela das mulheres brasileiras para quem o homem, “produto raro e extremamente valorizado no mercado” (GOLDENBERG, 2012, p.55), simboliza um valioso capital, objeto de dor e de prazer, sobre o qual “não há segurança, você sabe, os maridos podem nos deixar a qualquer momento...” (GARCIA-ROZA, 2008, p.35). Lucila, outra amiga, aparentemente é a mais feliz: “ri com facilidade, talvez porque seja rica. E talvez também porque tenha sido poupada de um grande sofrimento na vida. Era bem casada, com um marido amantíssimo e filhos adoráveis, segundo dizia” (GARCIA-ROZA, 2008, p.52). Ela corresponde ao padrão almejado por um considerável número de mulheres brasileiras da geração de Maria, entre as quais a família é a principal referência, que atribuem grande importância a “um marido, um casamento sólido e satisfatório.” (GOLDENBERG, 2012, p.54-55), fonte de segurança e até mesmo de poder.Finalmente, há Ana Luísa, separada do marido, amiga que “estava fora havia algum tempo, para espairecer. Sofrera um baque forte na vida, por causa do filho” (GARCIA-ROZA, 2008, p.153). Depois de o rapaz revelar-lhe que era homossexual, ela ficou totalmente fora de si e viajou para Paris, onde chorou dias às margens do Sena: “sei perfeitamente que hoje em dia todo mundo é homoerótico [...]. A tendência atual é essa. E não há como lutar contra a vanguarda. [...] Mas eu tinha outros planos para Edmond, que se foram Sena abaixo” (GARCIA-ROZA, 2008, p.154-155). Como DES CONTEXTOS DA NARRATIVA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA_Ver 09-01-17.indd 13209/01/2017 11:44:09  Cristiane da Silva Alves~ | 133 | ~ muitos pais, Ana Luísa projetou certas expectativas sobre o filho e, ao descobrir que ele as frustrara, assumindo uma sexualidade diversa do modelo para o qual ela pensava tê-lo educado, decepcionou-se e tratou de apartar-se para buscar alguma explicação “assimilável” para o fato. Destoando do círculo de amigas ricas ou de classe média de Maria, há outra personagem mencionada pela narradora que merece atenção. Trata-se da manicure que atende a algumas mulheres do prédio: “Adélia estava velha, não tinha aposentadoria, e nenhum salão aceitava mais contratá-la; restaram então as antigas clientes que se mantiveram fiéis e que se submetiam semanalmente aos tremores de suas mãos” (GARCIA-ROZA, 2008, p.75). A velhice, no seu caso, amplia a sua vulnerabilidade para além dos possíveis problemas comumente verificáveis em mulheres de idade avançada, à medida que compromete a manutenção do seu sustento. Privada de recursos, o que restará a essa mulher? Quem irá ampará-la, quando não puder mais exercer seu ofício, até então precariamente mantido graças à fidelidade e à tolerância de algumas clientes? O romance não traz respostas, mas lança para o leitor uma pista sobre o quão duro pode ser o envelhecer para os menos favorecidos, especialmente se desprovidos de apoio familiar, conforme sugere a narradora: “[...] é melhor que não continuemos a falar sobre a vida de Adélia, porque teríamos que tocar nos filhos dela, que moram no interior, e são terrivelmente ingratos” (GARCIA-ROZA, 2008, p.75). Embora a autora não aprofunde ou não se detenha sobre a história dessas mulheres circundantes, seu registro na narrativa contribui positivamente para o debate. Mesmo que de modo superficial, elas apontam para outros ângulos acerca do envelhecer, por vezes tomado falsamente como algo homogêneo. Na verdade, as pessoas em geral, assim como as personagens, vivenciam ou são afetadas pelo avanço da idade de diferentes maneiras, cada uma com as suas peculiaridades, conforme o caminho percorrido, as dificuldades, alegrias, tristezas, posição social e econômica, e outros fatores mais.Vale notar, ainda, que essas mulheres representam as referências mais próximas de Maria, de certo modo o seu parâmetro no que diz respeito ao universo feminino e suas diferentes nuances. É entre elas que a protagonista está inserida, tentando equilibrar o DES CONTEXTOS DA NARRATIVA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA_Ver 09-01-17.indd 13309/01/2017 11:44:09
Related Search
Advertisements
Related Docs
View more...
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks