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Entre luz e trevas: a importância da noite na Bíblia

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Entre luz e trevas: a importância da noite na Bíblia
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  Universidade de Lisboa - Faculdade de Letras Mestrado em História Antiga Ano Lectivo : 2017/2018 Unidade Curricular :   Seminário de Metodologia do Trabalho Científico    Paper  | Entre luz e trevas: a importância da noite na Bíblia A Professora da Unidade Curricular: Doutora Maria de Fátima Reis; O aluno: Carlos Daniel Gonçalves Pereira, n.º 136208. Lisboa, 14 de Dezembro de 2017  Paper   - Entre luz e trevas: a importância da noite na Bíblia 1   Resumo : A noite é um dos temas nevrálgicos da Bíblia, mas não só. As Sagradas Escrituras vão herdar este topos  de outras literaturas do Mundo Clássico e Pré-Clássico. Em contexto bíblico, a noite apresenta diversas dimensões. No Antigo Testamento, é durante a noite que Samuel escuta três vezes a voz de Deus e os hebreus fogem do Egipto depois de longas jornadas de servidão. Nos textos neo-testamentários, a noite simboliza a Paixão de Cristo, onde Jesus agoniza nos Jardim das Oliveiras, momento precedido pela celebração da primeira Eucaristia. Apesar de ser um tema transversal a todo o Corpus Biblicum , a noite apresenta diferenças bastante notórias nos textos veterotestamentários e neo-testamentários. O objectivo do nosso estudo é analisar os antagonismos e as simbioses deste topos  na literatura bíblica. PALAVRAS-CHAVE: Bíblia, Deus, Jesus, Noite, Trevas Introdução Ao longo de todo o Corpus Biblicum , podemos deparar-nos com algumas passagens onde o topos principal é a noite. O binómio 'luz/escuridão' acompanha o enredo de vários versículos veterotestamentários e neo-testamentários. Um desses primeiros momentos ocorre após a criação do mundo, de acordo com os relatos bíblicos. Mas é durante o período nocturno que ocorrem outras peripécias relevantes. A noite apresenta facetas muito distintas: no Antigo Testamento, a noite integra o projecto cosmogónico e Deus passa a assumir um papel providencialista na História. A noite também dá lugar a despertares nocturnos inesperados (como é o caso de Samuel e Jacob), ao êxodo do povo hebreu e o momento em que os homens tementes a Deus auguram a chegada de um novo dia. No Novo Testamento, a noite marca o fim de uma longa jornada e convida os professantes para momentos de contemplação, de oração e de repouso, herdados da tradição rabínica. Mas existem outros acontecimentos: Jesus celebra a primeira Eucaristia de noite, é preso e entregue às autoridades romanas, Pedro e Paulo fogem da prisão e João pressagia a vinda de Jesus, no seu discurso apocalíptico, que inaugura uma nova etapa na História da humanidade, onde não haverá dia nem noite. Antes de iniciarmos a nossa análise, e encerrando estes aspectos propedêuticos, impõem-se duas questões fundamentais: É possível encontrar algumas reciprocidades com outros textos do Mundo Antigo? Qual a importância da noite na Bíblia 1 ? 1  Do ponto de vista etimológico, a palavra 'noite' pode assumir diversas conotações. Estando a  Bíblia  inicialmente confinada a um conjunto de territórios muito específicos (Próximo Oriente, Grécia e Roma Antigas), a palavra sofreu alterações no seu significado. Se enveredarmos pelo campo das línguas semitas, o hebraico possui diversas expressões, mas a mais consentânea com o texto bíblico é láylah  ( ה ל י֑ ). Em latim, a palavra utilizada é noctem  e no grego antigo nykta  (  ) ou nyx  (  ὺ ).  Paper   - Entre luz e trevas: a importância da noite na Bíblia 2   A noite no Antigo Testamento A noite surge em diversos contextos, em tempos e espaços muito díspares no Corpus Biblicum . Mas estaremos perante uma temática inovadora? Em bom rigor, esta questão da noite surge em outros textos do Mundo Antigo. Ao longo da  Bíblia , encontramos diversos relatos que possuem alguma similitude com as demais literaturas da Antiguidade Clássica e Pré-Clássica 2 . Mas as culturas do Próximo Oriente Antigo foram uma charneira para a construção do relato da criação que encontramos na  Bíblia . Basta analisar as narrativas babilónica, egípcia e suméria e retirar as devidas ilações. No âmago da nossa proposta teórica, e perante a multiplicidade de referências que é possível perscrutar, houve necessidade de seleccionar os capítulos e versículos mais relevantes para o nosso estudo. Um dos primeiros textos veterotestamentários que vamos aludir é o relato da história das srcens, narrado no  Livro dos Génesis , onde Deus, no sossego pré-cósmico, decide criar o mundo e todos os elementos essenciais à vida: "No princípio, quando Deus criou os céus e a terra, a terra era informe e vazia, as trevas cobriam o abismo e o espírito de Deus movia-se sobre a superfície das águas. Deus disse: «Faça-se luz.» E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. Deus chamou dia à luz, e às trevas, noite. Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o primeiro dia" 3 . Que simbolismo terá a noite no relato dos Génesis ? Deus criou a luz para extinguir as trevas e estabelecer uma ordem cósmica, i.e. , a passagem do caos primordial ao equilíbrio entre todos os elementos que compõem o universo. Deus 2  Não nos cumpre aqui tratar estas matérias, mas aludimos a outras literaturas para contextualizar a dimensão da noite. No caso do Mundo Clássico, existem diversas referências na  Ilíada  e na Odisseia . Seguimos a tradução de LOURENÇO, Frederico. Cf., e.g .,  Il . XVIII.267-276 e 315,  Il . XVI.567-568,  Il . XXIV.12-18 e Od  . V.388, XII.285-292 (Ulisses anda à deriva no mar durante dois dias e duas noites). A noite, no Mundo Clássico, tinha uma grande carga simbólica - realizavam-se longas vigílias antes das exéquias, que nunca podiam decorrer depois do pôr-do-sol, mas também se acreditava que a noite era habitada por seres fantasmagóricos ou divindades associadas ao mal. Cf., por todos, a proposta teórica de PRIETO, M. H. Ureña, "Relendo Homero",  Humanitas , vol. XLVI, 1994, pp. 3-16. No Mundo Pré-Clássico, a noite serviu, e.g. , para consumar alguns crimes contra o faraó. Ver, ARAÚJO, Luís Manuel de, Os Grandes Mistérios do Antigo Egipto , Lisboa, Esfera dos Livros, 2017, p. 179. Isaías recuperou a imagem dos monstros que habitavam os lugares inóspitos na Babilónia, no momento em que previa o castigo sobre Edom. Cf.  Is  34, 14: "Até o fantasma Lilit ali habita e encontra o seu repouso". O caso mais paradigmático está em  Mt   15, 25, onde os apóstolos gritam, em uníssono, "É um fantasma!". 3  Cf. Gn  1, 1-2. Seguimos a tradução da  Bíblia elaborada por Herculano Alves e José Augusto Ramos. José Nunes Carreira sublinha um aspecto basilar da narrativa bíblica em comparação com outras culturas: a cosmogonia hebraica não convoca a intervenção dos homens, ao contrário de outras literaturas. É uma dádiva de Javé. Javé colmata as lacunas pré-existentes (o abismo primordial) através da criação do céu (firmamento) e da terra. Ver, CARREIRA, José Nunes,  Mito, Mundo e Monoteísmo , Lisboa, Europa-América, 1995, pp. 22-25. O caos regressa com o pecado srcinal (Adão e Eva). Cf. o novo relato da criação em Gn  2, 4b-3,24, onde Javé assume características antropomórficas.  Paper   - Entre luz e trevas: a importância da noite na Bíblia 3   instaura a seu poder sobre a Terra, quebrando tudo aquilo que existia antes da criação do mundo. Estas questões levam-nos a pensar como é que Deus e criação do mundo são acontecimentos inscritos na própria História sem que nada os tivesse precedido, ou seja, a concepção do tempo antes do tempo. Para destrinçar esta tese, é preciso recorrer à consciência histórica e convocar todos os recursos que lhe são inerentes. Só esse tempo prévio pode dar dinamismo à História. Neste sentido, e como salientou José Augusto Ramos, o objectivo é enquadrar o acto da criação divina como uma afirmação teológica e é isso que acabamos por encontrar no relato do  Livro dos Génesis 4 . A  Bíblia  foi beber a outros textos bastante familiares do Próximo Oriente Antigo. A ideia do caos primordial e da desordem possui algumas semelhanças com as literaturas pré-clássicas. Uma das grandes diferenças é que no mundo bíblico a criação consumou-se não num quadro monoteísta e monolátrico, mas através da participação de vários deuses. O contexto complexifica-se se tivermos em consideração que os deuses recebem os epítetos consoante os aspectos cronológicos e espaciais 5 . No caso de Babilónia, destaca-se a epopeia da criação de  Atramhasis  e Enuma Elish/   š  . Nos mitos sumérios, os autores realçam a narrativa de Enki  e  Ninmah . Para o Egipto faraónico, podemos frisar a importância das cosmogonias heliopolitana e menfita, tendo em conta a heterogeneidade de alegorias e narrativas mitológicas. A proximidade entre as diversas culturas faz com que se aproveitem muitos pormenores de relatos cosmogónicos de outras civilizações. E onde é que entra a noite e a sua simbologia? Analisando cada uma das culturas acima referidas, o relato bíblico vai herdar algumas premissas do Antigo Egipto. A noite e a escuridão personificam-se nos deuses Hu (associado à infinitude), Nun (tempo enevoado) e Kuk (escuridão). Independentemente das leituras de cada narrativa, a noite simboliza a separação entre o caos e a ordem cósmica, ao mesmo tempo que possibilita a interrupção das actividades laborais e a preparação para o novo dia de trabalho 6 . 4  Cf. RAMOS, José Augusto, "O tempo antes do tempo", Cadmo , 8/9, 1999, pp. 51-53. De acordo com o autor, a consciência histórica é fundamental para compreender as diferentes temporalidades que encontramos no texto bíblico (contexto pré-cósmico e cósmico): "O tempo antes do tempo representa, segundo esta perspectiva, a base e o suporte dos acontecimentos, o paradigma para os comportamentos, o âmago, a essência e o sentido para os projectos; ele é, ainda em última instância, o abrigo para as desilusões que o tempo traz. Voltar a olhar para este tempo das srcens é um refluxo regenerador: a sua contemplação estabelece um contacto imediato com as essências", p. 51. Ver, igualmente, a tese de NOLAN, Albert,  Jesus antes do Cristianismo , Lisboa, Paulus, 2010, pp. 124-129,  passim . 5  Sobre esta problemática, ver, MENDONÇA, José Tolentino,  A leitura infinita - A Bíblia e a sua interpretação , Lisboa, Paulus, 2015, pp. 74-77. 6  É interessante verificar que o estabelecimento de uma completa harmonia entre as forças que compõem o universo seja realçada no hino formulado pelo autor do  Livro do Eclesiastes . Cf. Ecl  3, 1-8. Cfr. as teses de RAMOS, J. A., ob.cit. , pp. 54-55 e CARREIRA, J. N., Filosofia antes dos Gregos , Lisboa, Europa-América, 1995, pp. 60-71, onde o autor destaca a relação dos hebreus com o tempo e a criação do mundo.  Paper   - Entre luz e trevas: a importância da noite na Bíblia 4   Há um aspecto sintomático a todos os relatos da criação: a vitória das trevas sobre a luz. O dia é suplantado pela noite, impedindo a passagem dos raios solares. Nas restantes narrativas, os deuses, os homens e a cadeia de acontecimentos que sucedem provêm do caos. Ao invés desta proposta, e regressando ao mundo bíblico, o que encontramos? Javé doma o caos primordial e começa a formar todos os elementos necessários à vida (animais, plantas). No entanto, existe uma questão quase irresoluta e, portanto, urge perguntar: quem criou a desordem pré-existencial? A cosmogonia  (srcem do mundo) precede a teogonia  (srcem de deus) ou vice-versa? Não existe uma resposta credível, mas o único aspecto que interessa para a nossa análise é o facto de a noite assegurar o intercâmbio entre as diversas horas do dia 7 . As cosmogonias destacam a introdução de elementos astronómicos adjuvantes: as estrelas e a Lua 8 . A Lua, como satélite natural, e as estrelas, como corpos celestes com luz própria, aliviarão o temor dos homens durante a noite 9 . Para Catherine Chalier, "la lumière suscite presque toujours la vie, la confiance et la joie; les ténèbres l' incertitude, la tristesse et l' angoisse" 10 . O dia e a noite mantêm um vínculo inquebrável. Vejamos o outro relato do  Livro do Génesis  (cf. Gn  1, 14-19): "«Deus disse: haja luzeiros no firmamento dos céus, para separar o dia da noite. Deus fez dois grandes luzeiros: o maior para presidir ao dia [Sol], e o menor para presidir à noite [Lua]; fez também as estrelas. Deus colocou-os no firmamento dos céus para iluminarem a Terra, para presidirem ao dia e à noite, e para separarem a luz das trevas" 11 . Além do acto da criação, a noite também é fundamental para estreitar relações entre a entidade divina e o professante. Um desses exemplos pode ser testemunhado no Estas propostas são retomadas na obra  Lendas e Narrativas do Antigo Testamento , Lisboa, Colibri, 2015, pp. 101-130. Para o Egipto, ver, por todos, Luís Manuel de Araújo, ob.cit. , pp. 75-80. 7  Cf. CHALIER, Catherine,  Le jour et la nuit au diapason de la création , Paris, Seuil, 2009, pp. 30-33. Para os hebreus, a sequência cronológica era assegurada pelo pôr-do-sol. Não deixa de ser paradoxal o facto de Deus aproveitar as trevas, um elemento pré-cósmico, para a nova ordem universal, i.e. , a noite. 8  Ver GIRARD, Marc,  Les symboles dans la Bible, essai de théologie biblique enracinée dans la experience humaine universelle , Paris, Éditions Fides, 1991, pp. 130-133 e pp. 189-191. 9  Como se pode verificar, a criação destes elementos astronómicos tem uma missão específica: manter a ordem cósmica e cronológica, mas não só. Depois de firmada a aliança entre Javé e o seu povo, o tempo é fundamental para calendarizar as festas religiosas. Esta tese também é partilhada por COLUNGA, Alberto, «I - Pentateuco» in  Idem e CORDERO, Maximiliano Garcia,  Biblia comentada , Madrid, Editorial BAC, 2010, p. 55. Valerá a pena referir que a Lua e o Sol eram cultuados em outros territórios do Próximo Oriente Antigo. Alguns investigadores encontram certas peculiaridades das festas judaicas no contexto da religiosidade grega, nomeadamente entre Dioniso e Javé, e onde se ressalva, mais uma vez, a carga simbólica da noite. Estaremos perante um fenómeno de sincretismo religioso? Sobre esta problemática, cf., CORRENTE, Paola, «Cuestiones dionisíacas» in  BERNABÉ, A., SAN CRISTÓBAL, Ana Isabel J. e SANTAMARÍA, Marco Antonio,  Dioniso ,  Los orígenes, Textos y imágenes de lo dionisiaco en la Grecia Antigua , Madrid, Liceus Antigua, 2013, pp. 495-505, especialmente pp. 497-498. 10  Cf. CHALIER, Catherine, ob.cit  ., p. 50. 11  Jesus retoma o relato da criação do mundo no  Lógion 50 . Cf. RAMOS, José Augusto,  O Evangelho segundo Tomé  , Lisboa, Editorial Estampa, 1992, p. 64.
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