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O Deus Medieval: relações de poder nos primórdios de uma Nação

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Neste artigo, vamos perceber em que medida é que Portugal é fruto de um projecto apoiado por diversas ordens religiosas e militares. Estas ordens eram fundadas no seio do Cristianismo pelos primeiros monarcas (com destaque para D. Afonso Henriques e
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    Projecto de Investigação :   Portugal e as suas Origens O Deus Medieval: Relações de poder nos primórdios de uma Nação 2017  1   O Deus Medieval: relações de poder nos primórdios de uma Nação 1   Carlos Pereira  Email: carlosdgpereira1995@gmail.com Resumo : Portugal. Um país pequeno, pobre, uma zona turística para britânicos… Portugal é a cauda da Europa. Será que Portugal é apenas isto? A sua História dá-nos outra versão. Como surgiu este país que se veio a tornar independente? Quem foram os seus fundadores? De que modo é que um condado se torna país? Estas são algumas das questões a que, através de diferentes perspectivas vamos tentar responder, ao longo de uma série de “escavações” de fundo histórico e sempre através de uma base historiográfica. Entre lendas e factos, muitas vezes indissociáveis, vamos procurar a verdade na questão: Quem são os portugueses? PALAVRAS-CHAVE: Portugal, Ordens Religiosas, Política, Religião Introdução : Falar das srcens de Portugal é referirmo-nos a um tema conturbado da História Medieval. Política e Religião. Dois poderes que ao longo da história sempre partilharam sentimentos de amor/ódio. A relação entre política e religião é muito antiga e conflituosa. O poder político, apesar de ser influenciado pelo poder religioso, está quase sempre acima dele. Mas estes dois gigantes não podem viver um sem o outro. Eles eram, e talvez ainda sejam, os dois pilares necessários para o funcionamento da sociedade medieval, que se dividia, genericamente em Clero, Nobreza e Povo. Neste artigo, vamos perceber em que medida é que Portugal é fruto de um projecto apoiado por diversas ordens religiosas e militares. Estas ordens eram fundadas no seio do Cristianismo pelos primeiros monarcas (com destaque para D. Afonso Henriques e D. Sancho II). Este projecto tinha o intuito de resistir às constantes ameaças da monarquia castelhano-leonesa, uma monarquia bem mais antiga que a nossa. Vamos começar por falar da realidade religiosa na Península Ibérica. Os muçulmanos já existiam enquanto membros de um corpo religioso devidamente constituído: o 1  Esta investigação foi desenvolvida no âmbito do projecto - Portugal e as suas srcens . Gostaríamos de agradecer ao Filipe Nunes, aos colegas que participaram nas longas jornadas de pesquisa e à Prof.ª Doutora Ana Maria Rodrigues (CH-FLUL), por todos os esclarecimentos e pela disponibilidade e prontidão demonstradas na revisão científica.  2   Islamismo. O congruente desempenho da actividade religiosa assenta no poder dos califas, representantes de Alá, e do Profeta Maomé 2 . A importância das ordens religiosas A conquista da Península Ibérica faz parte da fase expansionista do Islão, que durou do século VIII ao século XII, período durante o qual os seguidores de Alá conseguem ocupar este território. Estamos a falar de uma religião muito simples e com fortes paralelismos em relação ao Cristianismo, tais como: a crença na linhagem profética dos antepassados - Abraão, Moisés e Jesus; grande admiração por Maria (a quem chamavam  Miriam  e a interpretação de forma objectiva das Sagradas Escrituras: o Alcorão e a Bíblia. Ambas têm uma construção textual semelhante. A criação de ordens religiosas militares na Península Ibérica insere-se no contexto das Cruzadas e no combate contra o Islão 3 . É legítimo falarmos da presença da Igreja na História das Ordens Militares. Algo que adveio do movimento que tinha irrompido na Europa, após o apelo do Papa Urbano II na sua Bula de Cruzada. Todos os fiéis deviam combater o inimigo e salvar as monarquias do mundo ocidental. O objectivo destas ordens era diminuir a influência muçulmana era restaurar a fé cristã. Mais do que irem apenas combater, tinham uma razão espiritual para agirem. Contudo, as questões cultuais estavam sob orientação dos sacerdotes seculares. Daí se perceba que São Bernardo tenha elaborado a Regra dos Templários e traçado as bases de um autêntico programa político que foi influenciado pelos ideais de Santo Agostinho, defensor da "guerra justa". A elaboração de um programa que se justificava pelo objectivo da salvação das almas. No entanto, as ordens militares tinham poucos aspectos ligados à santidade. A vida monástica era feita por um pequeno número de membros religiosos. A maioria era proveniente da nobreza (cavalaria) podendo contrair matrimónio e combater. Alguns podiam levar uma vida despojada, ou seja, como leigos. As actividades das ordens religiosas eram praticamente ininterruptas. Estavam preparadas com mecanismos que controlavam a sociedade, possibilitando vigilância de todos os comportamentos e condutas. A vida monástica em Portugal estava concentrada na ordem beneditina e nas ordens de tipo peninsular. A entrada de outras congregações 2  Para uma curta resenha histórica da religião islâmica, cf., por todos, Jamal. J. Elias,  Islamismo , Colecção Religiões do Mundo n.º 4, Lisboa, Edições 70, 2011. 3  Sobre as ordens religiosas, cf., José Mattoso,  Identificação de um país - Ensaio sobre as srcens de Portugal (1096-1325) , vol. 1, Lisboa, Editorial Estampa, 1985, pp. 410-413. Cf.  Idem ,  Religião e Cultura na Idade Média Portuguesa , Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1982, pp. 55-73 e pp. 73-91.  3   em solo português e a renovação do panorama religioso foram desenvolvidas com a ajuda de D. Teresa, depois da morte de D. Henrique. Referimo-nos à Ordem de Cluny. Esta reputadíssima Abadia de Cluny alinhava pela Regra de São Bento, defendendo a celebração de práticas religiosas muito prolongadas. Reinava a exuberância no embelezamento dos espaços litúrgicos, tudo para que imperasse o culto a Deus. Para além da vida contemplativa e das práticas agrícolas as ordens também tinham outras funções. A Ordem dos Hospitalários, que proveio de São João de Jerusalém, praticava actos de assistência. A ordem Teutónica e a de Santiago de Espada centravam-se na luta contra os pagãos e infiéis. A Ordem dos Templários, apesar de não ser a mais importante, tinha o objectivo de defender os lugares santos de Jerusalém; acabou a acumular riqueza para fins políticos e económicos, algo que a tornou indispensável. A Ordem de Santiago inscreve-se na própria História de Portugal, a partir de 1172, quando D. Afonso Henriques lhe concede uma recompensa pelos feitos alcançados no decurso da Reconquista. A ordem, enquanto estrutura social e religiosa, será crucial na legitimação do poder político. A difusão dos seus propósitos pode ser encontrada na arte cristã da época. A evangelização e a promoção doutrinal permitiam o contacto com grupos de numerosos fiéis e devotos. Nas srcens da História Medieval Peninsular Vejamos como era a realidade histórica deste período cronológico. Estamos em plena "Reconquista Cristã", um marco temporal que se desenvolve entre os séculos VIII-XII em Portugal e integra a denominada História Medieval Peninsular. Em Portugal, a Reconquista só termina em 1249. Neste avanço para sul, vai-se constituir um corpo militarizado chefiado pelo rei de Leão, Fernando Magno. Em 1071, falece o último elemento da família condal. Afonso VI sobe ao poder, reinando entre 1072-1109. Este monarca desenvolveu uma série de investidas, anexando parte da Galiza e de Portucale e conquistando territórios cristãos desde o Minho, passando pela Beira Alta 4  até ao Tejo. No sul devemos destacar Alcácer do Sal como ponto hábil para o sucesso das incursões. A zona da raia foi crucial para combater os domínios muçulmanos de Badajoz e Sevilha, a par de Córdova e Granada que também eram estrategicamente 4  Não nos cumpre aqui analisar as premissas da interminável discussão sobre as srcens do topónimo «Beira». Contudo, a região das «Beiras» teve um papel crucial na demarcação da linha fronteiriça entre cristãos e mouros, no período da Reconquista. Em relação à dimensão do território, de acordo com a documentação disponível, a «Beira» albergava diversos domínios territoriais em toda a zona da raia. Sobre este assunto, cf. o excelente estudo de António Rafael Amaro, "Regiões e Regionalismo: a região da Beira",  Mathésis , n.º 17, 2008, pp. 9-12.  4   importantes. A conquista de Toledo, em 1085, foi temporária. No ano seguinte, as forças de Afonso VI de Castela serão derrotadas pelos almorávidas na Batalha de Zalaca. Os governantes foram obrigados a aplicar uma legislação fiscal muito dura, com sucessivos aumentos de impostos. Mas sem dúvida que a maior dificuldade terá sido a subjugação ao credo muçulmano, a bem ou a mal. Afonso VI toma consciência da falta de controlo dos domínios, todos os reinos europeus ficaram em alerta, estava em causa a sua sobrevivência. O rei leonês tinha boas relações com a Abadia de Cluny, nomeadamente com Roberto I, Duque de Borgonha, que lhe concedeu a mão da sua filha, D. Constança de Borgonha. Esta união matrimonial tratou-se de um acordo político/religioso que trouxe compensações, tais como, uma solução para acabar com a frente almorávida. O trono devia ser protegido pelo rei sem esquecer a importância dos territórios que constituíam o seu reino. Os últimos anos deste rei são conturbados. Sancho era o seu filho legítimo, pelo que já estava ser preparado para governar 5 . No âmbito da vida monárquica portucalense, e devido à importância crescente da Igreja Católica, D. Henrique defende a nomeação de ilustres personalidades locais para determinados cargos administrativos e eclesiásticos. Destaque para Gonçalo Pais de Paiva, o novo bispo da diocese de Coimbra. O objectivo seria apoiar as comunidades locais perante a ofensiva islâmica. O mais interessante é que D. Henrique só fazia escolhas dependentes de Cluny. A Reforma Gregoriana, promovida pelo Papa Gregório VII, era um plano que visava reforçar a religiosidade cristã e defendia a intervenção do poder espiritual no mundo político. Apesar de ser atribuída a este papa a redacção do plano reformista, muitas questões foram debatidas em pontificados anteriores e mesmo depois da sua morte. A reforma marcava ainda o triunfo da liturgia romana face à liturgia hispânica/moçárabe praticada na Península Ibérica. O Direito Canónico permanecia o mesmo mas pessoalmente cada sacerdote devia levar uma vida mais modesta 6 . No fundo, a Igreja Católica passaria a actuar livremente nas questões religiosas sem obter permissão das autoridades governativas, usando a "justificação pela fé" como razão. Em bom rigor os reinos continuavam a ser vigiados pelo domínio da Igreja Católica, na figura do Papado. Estas mudanças implicavam o robustecimento das relações entre o Papado e o episcopado, havendo um maior controlo na admissão de futuros bispos. Contudo, a Santa Sé não rejeitava o apoio das entidades monárquicas. 5  Cf. José Mattoso,  História de Portugal , vol. 2, Lisboa, Editorial Estampa, 1997, pp. 26-30. 6  Cf.  Idem ,  Identificação de um país   […], pp. 400 -401.
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