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Oeste paranaense: território tradicional Guarani

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RESUMO: O povo Guarani é um dos povos de maior tempo de contato com os europeus. O desembarque dos portugueses na costa leste brasileira fez com que entrassem em contato com os povos Tupi, o tronco linguístico que, possivelmente, englobava o maior
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    Oeste paranaense: território tradicional Guarani Toni Juliano Bandeira (UNIOESTE) 1   RESUMO: O povo Guarani é um dos povos de maior tempo de contato com os europeus. O desembarque dos portugueses na costa leste brasileira fez com que entrassem em contato com os povos Tupi, o tronco linguístico que, possivelmente, englobava o maior número de povos indígenas do Brasil, no qual se inclui o povo Guarani. Este, vive na região Atlântico-Sul do Brasil, no Noroeste da Argentina, no Paraguai e no sul da Bolívia, dividindo-se em vários outros subgrupos. Durante o processo de conquista e colonização do Brasil, os Guarani, como vários outros povos indígenas, foram, gradativamente, perdendo suas terras, e muitas nações desapareceram sem que fossem feitos registros sobre seus costumes e língua. Nos últimos anos, no oeste do estado do Paraná, os Guarani vem buscando retomar uma pequena parte de um território tradicional para eles, o qual haviam perdido no tempo da vinda das frentes colonizadoras e em decorrência do alagamento provocado pela construção da hidrelétrica de Itaipu. Assim, o objetivo deste trabalho é mostrar a legitimidade da atual reivindicação dos Guarani, demonstrando por meio de dados de pesquisas arqueológicas e relatos de cronistas e exploradores do período da conquista, que este território, quando chegaram portugueses e espanhóis, já era habitado pelos Guarani  –   bem como por outros povos como o Xetá. Neste sentido, com este breve artigo, procuraremos contribuir na difusão do grave problema que a expropriação territorial causa para seu modo de vida, refletindo, também, sobre o discurso ruralista que vem sendo construído no oeste paranaense. PALAVRAS-CHAVE: Povo Guarani; Oeste paranaense; Expropriação territorial; RESUMEN: El pueblo Guaraní es uno de los pueblos de mayor tiempo de contacto con los europeos. Al llegar en el litoral de Brasil, los portugueses entraron en contacto con los Tupi, el tronco lingüístico que, posiblemente, englobaba el mayor número de pueblos indígenas de Brasil, en el cual se incluye el pueblo Guaraní. En el proceso de conquista y colonización de Brasil, los Guaraní, como varios otros pueblos indígenas, fueron, perdiendo sus tierras, y muchas naciones desaparecieron sin que fueran hechos registros sobre sus costumbres y lengua. En los últimos años, en el oeste del estado de Paraná, los Guaraní intentan retomar una pequeña parte de un territorio tradicional para ellos, el cual habían perdido con la llegada de los colonizadores y debido a la construcción de la hidroeléctrica de Itaipu. Así, el objetivo de este trabajo es mostrar la legitimidad de la actual reivindicación de los Guaraní, demostrando por medio de datos de investigaciones arqueológicas y relatos de cronistas y exploradores del período de la conquista, que este territorio, cuando llegaron portugueses y españoles, ya era habitado por los Guaraní  –   como por otros pueblos como el Xetá. En este sentido, con este breve artículo, intentaremos contribuir en la difusión del problema que la  pérdida territorial causa para su modo de vida, reflexionando, también, sobre el discurso contra los indígenas que está siendo construido en el oeste del estado de Paraná. PALABRAS-CLAVE:  Pueblo Guaraní; Oeste paranaense; Cuestión territorial; 1  Graduando do 4° ano do curso de Letras  –   Português/Espanhol pela UNIOESTE/Cascavel. E-mail: tonibandiera@hotmail.com.    1 OS GUARANI 2    –   BREVE CARACTERIZAÇÃO CULTURAL O povo Guarani é um dos povos de maior tempo de contato com os europeus. O desembarque dos portugueses na costa leste brasileira fez com que logo entrassem em contato com os povos Tupi, um tronco que, possivelmente, englobava o maior número de povos indígenas do Brasil, no qual se inclui o povo Guarani. Este vive na região Atlântico-Sul do Brasil, no Noroeste da Argentina, no Paraguai e no sul da Bolívia, dividindo-se em vários outros subgrupos. Assim, os Guarani ficaram conhecidos nos relatos de muitos exploradores, cronistas e estudiosos  –   e ainda o são  –   por vários outros nomes. De acordo com Egon Schaden (1974, p. 2), em sua obra  Aspectos fundamentais da cultura Guarani , “os Guaraní do Brasil Meridional podem ser divididos em três grandes grupos: os Ñandéva (aos quais  pertencem os Apapokúva, que se tornaram famosos pelo trabalho de Curt Nimuendajú), os Mbüa e os Kayová”. Na Bolívia, concentra -se o grupo Chiriguano, o qual possui a maior  população entre os povos Guarani. Sobre as denominações dos subgrupos Guarani, Shaden (1974) escreve:  Ñandéva (os que somos nós, os que são dos nossos) é autodenominação de todos os Guaraní. Gostam de usar expressões como ñandevaekuere (nossa gente), ñandéva eté (é mesmo nossa gente), txe ñandéva eté (eu sou mesmo Guaraní, um dos nossos ) e outros semelhantes. [...]  Mbüa (‘gente’) é a autodenominação mais usada pelos Guaraní conhecidos na bibliografia como Kainguá, Kaiuá etc. e as que os Ñandéva chamam Tambéaópé (‘chiripá largo’) ou Txeirũ, Ñaneirũ (‘meus” ou “nossos amigos’). Não raro, encontra -se também para estes índios a denominação Apüteré, ou seja, Apyteré [...] Entre os paraguaios são conhecidos pelo apelido de Baticolas, em atenção ao chiripá que usam entre as pernas. Também se ouve em outros subgrupos o apodo Aváhuguai, ‘homens de cauda’, dado pelo mesmo motivo. [...]  Kayová é o terceiro grupo, também conhecido como Teüi e Tembekuá. A pronúncia do nome (corruptela talvez de káá  ỹ   yguá ) oscila entre Kaiuá e Kadjová, com as formas intermediárias Kaiouá e Kayová [...] A designação Teüi (Te ỹ i) é empregada  por eles próprios para todos os índios, qualquer que seja a tribo, com o significado de ‘naturais da terra’ (SHADEN, 197 4, p. 3). Segundo Nimuendaju (1987), os Guarani, para designar nação ou horda, ao se referirem a si na própria língua, utilizam o termo  Ñandéva quando a pessoa com quem se fala  pertence ao mesmo grupo, e Oréva se este sujeito é de outra horda. Ambos os termos devem ser traduzidos como “os que são dos nossos”, “nossa gente”, no entanto, a primeira designação inclui o interlocutor, enquanto que a segunda o exclui. É essa uma particularidade 2 Sobre a grafia dos nomes tribais, segue-se, neste trabalho, a utilização aprovada na 1ª Reunião Brasileira de Antropologia, realizada no Rio de Janeiro, em 1953. Na ocasião, decidiu-se que os nomes tribais não teriam flexão de gênero e de número, tanto em função substantiva quanto adjetiva, a não ser que fossem de srcem  portuguesa ou morficamente aportuguesados.    interessante da língua Guarani, o fato de possuir sete pronomes pessoais do caso reto, havendo dois pronomes da terceira pessoa do plural, a saber, uma que inclui e outra que exclui o interlocutor. Nimuendaju (1987) comenta ainda que: Só quem fala exatamente o mesmo dialeto é considerado pelos Guarani como membro da tribo. A menor diferença de sotaque em relação ao dialeto da horda é motivo de escárnio e caracteriza a pessoa como estrangeira. Quando se fala em outro dialeto, é freqüente os índios se recusarem a entender, embora pudessem fazê-lo. Cada horda reivindica apenas para si o nome da nação toda, sorrindo com desdém do atrevimento das demais, que por sua vez, arrogam-se o mesmo direito. Da mesma maneira, cada horda afirma que só ela fala a verdadeira e correta língua Guarani, conferindo às outras, por menor que seja a diferença dialetal, apelidos de uso freqüentemente vago e instável. Os membros de uma horda só empregam sua  própria alcunha quando querem contrapor-se as outras hordas, e quase nunca se consegue que eles revelem a um estranho o apelido de sua horda, por mais solícitos que sejam em divulgar as alcunhas de todas as demais. (NIMUENDAJU, 1987,  p. 7-8). Esses povos Guarani apresentam características semelhantes em sua cultura e organização sócio-política, no entanto, apresentam variações linguísticas e especificidades na cultura material e não material. Schaden (1974, p. 1) afirma que “entre os Guaraní contemporâneos a consciência de unidade tribal não chegou a prevalecer”. Ainda conforme Shaden (1974), cada um dos subgrupos Guarani procura acentuar as diferenças culturais, sendo que “a diversidade dos dialetos, das crenças e práticas religiosas, de constituição  psíquica, e mesmo de aparência física, serve de motivo para cada bando afirmar sua pretensa superioridade s obre as demais” (1974, p. 1). Assim, o autor acima referido considera que os Guarani formam uma unidade apenas no sentido de “tribo - nação”, e não como “tribo - estado”. Apesar disso, é importante salientar que os subgrupos do povo Guarani formam uma única nação: a nação Guarani, a qual, na época dos primeiros contatos com os europeus, já estava  bem assentada, ocupando toda a região da qual restou-lhe pequenas ilhas de terras na parte meridional da América do Sul. Em relação à língua Guarani, ela faz parte da família linguística 3  Tupi-Guarani, a maior família dentro do tronco linguístico Tupi. A língua Guarani é falada pelos vários subgrupos Guarani que se mencionou anteriormente, sendo que apresenta vários dialetos nos quatro países em que vivem os índios 4  Guarani. Na época da conquista da América, as línguas 3 De acordo com Rodrigues (1986, p. 29), uma família linguística “é um grupo de línguas para as quais se formula a hipótese de que têm uma srcem comum, no sentido de que todas as línguas da família são man ifestações diversas, alteradas no correr do tempo, de uma só língua anterior”. Como exemplo, podemos observar línguas como o Português, o Espanhol, o Italiano, o Catalão, entre outras, as quais derivam do Latim, língua bem conhecida historicamente. 4 Sobre o termo “índio”, cremos ser importante explicitar determinados pontos. Este termo começa a ser utilizado desde as primeiras viagens de Cristóvão Colombo à América, quando este navegador europeu provavelmente não podia expressar que havia chegado a outro território que não as Índias Orientais  –   já que essa havia sido sua  promessa à coroa espanhola. A partir disso, passou- se a usar a denominação “índio” para os indivíduos de todas    que integram tal família linguística eram faladas em praticamente todo o litoral brasileiro e na  bacia do Rio Paraná. O linguista Aryon Rodrigues, um dos maiores pesquisadores das línguas indígenas brasileiras, expõe um quadro que apresenta, somente no Brasil, 21 línguas que fazem parte da família Tupi-Guarani, além dos dialetos que, com o decorrer do tempo, cada língua desenvolveu (RODRIGUES, 1986, p. 39). De acordo com o  Atlas Sociolingüístico de  Pueblos Indígenas en América Latina, organizado por Sichra (2009, p. 24), a família Tupi-Guarani é composta por 38 línguas, as quais se distribuem por oito países. Dentre as mais de 180 línguas indígenas brasileiras, a língua Guarani destaca-se,  juntamente com a religião, como um dos fatores mais fortes da identidade cultural do povo indígena que a fala. Note-se, ainda, que esta é uma das poucas línguas nativas que foi adotada  pelos colonizadores europeus. A miscigenação que formou a população paraguaia fez com neste país a língua Guarani se tornasse a mais falada entre seus habitantes, tendo-se srcinado deste processo um novo dialeto da língua indígena. Na obra Gramática de la lengua Guaraní, Canese aponta que o Guarani Paraguaio é falado por quase a totalidade da população do país, algo que chegaria a uma cifra de cerca de 94 por cento dos habitantes (1983, p. 16). Tem-se, também no Paraguai, o  Jopara,  palavra que em Guarani expressa literalmente “mescla, mistura”, uma língua que mescla o Guarani com o Espanhol , mas que mantém a estrutura do Guarani. Segundo a autora, Bartolomeu Melià considerou o  Jopara como tendência a uma terceira língua (CANESE, 1983). Sobre os dialetos da língua Guarani falados no Paraguai, Canese escreve: En el Paraguay pueden diferenciarse tres variedades de guaraní casi ininteligibles entre sí: el misionero o jesuítico, el tribal y el guaraní paraguayo. El guaraní misionero se habló en el área y tiempo de influencia de las misiones jesuíticas, entre 1632 y 1767, y después fue desapareciendo paulatinamente hasta que se extinguió definitivamente para 1870, pero habiendo dejado importantes documentos escritos. El guaraní tribal es hablado por cinco o seis etnias asentadas dentro del territorio  paraguayo y lim itadas geográficamente: Chiriguanos, Tapieté, Paĩ Tavyterã, Avakatueté o Ava Chiripá, Mbya y Aché Guayakí. (Estos últimos prácticamente extinguidos) (CANESE, 1983, p. 15). Sobre a importância e reconhecimento da língua Guarani no espaço em que a mesma é falada, nota-se que ela é supranacional em distintos aspectos. Neste sentido, destaque-se que as etnias da América. Neste sentido, Luciano Gersem dos Santos (2006) explica q ue para muitos brasileiros “a denominação tem um sentido pejorativo, resultado de todo o processo histórico de discriminação e preconceito contra os povos nativos da região. Para eles, o índio representa um ser sem civilização, sem cultura, incapaz, selvag em, preguiçoso, traiçoeiro” (SANTOS, 2006, p. 30). Gersem comenta que é com o surgimento do movimento indígena organizado a partir da década de 1970, que “os povos indígenas chegaram à conclusão de que era importante manter, aceitar e promover a denominação genérica de índio ou indígena, como uma identidade que une, articula, visibiliza e fortalece todos os povos srcinários do atual território brasileiro”  (2006,  p. 30). Assim, o termo “índio” passou de pejorativo “a uma marca identitária capaz de unir pov os historicamente distintos e rivais na luta por direitos e interesses comuns” (SANTOS, 2006, p. 30).      o Guarani é língua oficial no Paraguai, juntamente com o Espanhol, conforme o Artigo 140 da Constituição da República do Paraguai, de 1992; língua oficial para o trabalho no Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), ao lado do Português e do Espanhol, de acordo com o Decreto 31/2006, da própria instituição; e também co-oficial no município de Tacuru, no estado do Mato Grosso do Sul, o que se encontra no Projeto de Lei 009/2010, da Câmara Municipal do Município de Tacuru  –   MS. Em relação ao contingente populacional Guarani do início do século XVI, Melià (1992) faz notar que eles eram bastante numerosos. Este autor escreve da seguinte forma: “la hipótesis de una población de 1.5000.000 y hasta 2.000.000, aunque parezca maximalista para quien tiene el prejuicio de una América tropical de escasos recursos y culturas ‘bajas’, encuentra bases serias en la documentación disponible […]” (MELIÀ, 1992, p. 20). Por meio desta afirmação, constata-se que grande parte dessa população desapareceu durante a colonização da América do Sul. Muitos foram mortos nas chamadas “guerras justas”, outros em conflitos declarados, milhares nas mãos dos bandeirantes portugueses e alguns mais, ainda, agonizaram nas selvas sem mesmo que soubessem por qual razão.   Acerca da população atual, as estimativas são muito variadas. Isto se deve ao fato de que não há um Censo Demográfico único que realize tal trabalho, porque, como já vimos, os Guarani vivem em quatro países. Chegar a uma relativa precisão dos dados de levantamento  populacional torna-se ainda mais difícil quando se considera a mobilidade espacial Guarani. Sendo assim, têm-se determinadas dificuldades na constituição destes dados, porém, algumas estimativas serão elencadas.  Na Bolívia, o grupo dos Chiriguano representa a maior população Guarani, somando aproximadamente 80 mil pessoas (CIDOB-BO, 2005). Na Argentina, O  Instituto Nacional de  Estactísticas y Censos en Argentina fez um levantamento que apontava à época de sua  publicação, uma população de 34.877 habitantes (ECPI, 2004-2005). No Paraguai, os Guarani formam a segunda maior população, a qual, conforme dados do  II Censo Nacional Indígena de Población y Viviendas, de 2002, era de 53.500 pessoas (DGEEC, 2002). No Brasil, os dados são bastante variados. Apresentamos, abaixo, dados compilados no  Inventário da  Língua Guarani Mbya 5   5  O Inventário linguístico da Língua Mbya foi executado pelo Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística (IPOL) em parceria com outras instituições e lideranças Guarani. Ele se inscreve em um  projeto maior do governo Federal, o Inventário Nacional da Diversidade Linguística. Este projeto, que está no decreto 7.387, de 2010, e acontece sob gestão do Ministério da Cultura, foi instituído “ como instrumento de identificação, documentação, reconhecimento e valorização das línguas portadoras de referência à identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade  brasileira” (BRASIL, 2010).  
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