of 15

Relatório de Iniciação Científica (Estudos Literários) - Bio(tanato)política, terrorismo e literatura: Policarpo Quaresma e o Golpe de Estado no Brasil contemporâneo (2015/2016)

22 views
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Share
Description
Ao analisar o romance Triste fim de Policarpo Quaresma (2008), partimos de uma perspectiva socioeconômica e histórica que desvela o inconsciente social da Primeira República (1889-1930), evidenciando a relação capital x trabalho. O estado de exceção
Tags
Transcript
  Universidade Federal do Espírito Santo Programa Institucional de Iniciação Científica Relatório Final de Pesquisa Lingüística, Letras e Artes 1 Título do Subprojeto Identificação: Bio(tanato)política, terrorismo e literatura: Policarpo Quaresma e o Golpe de Estado no Brasil contemporâneo. Grande área do CNPq.: Lingüística, Letras e Artes Área do CNPq: Letras Título do Projeto: Oswald de Andrade, Pagu e José Agrippino de Paulo e a biopolítica da Ideia comunista Professor Orientador: Luis Eustáquio Soares Estudante PIBIC/PIVIC: Vinícius de Aguiar Caloti Resumo :  Ao analisar o romance Triste fim de Policarpo Quaresma (2008), partimos de uma perspectiva socioeconômica e histórica que desvela o inconsciente social da Primeira República (1889-1930), evidenciando a relação capital x trabalho. O estado de exceção de ontem, no regime da República da Espada (1889-1894), é o mesmo de hoje, o do golpe de Estado contra a gestão petista (2002-2016), democraticamente eleita por 54 milhões de votos, ou seja, é um estado de exceção do capital contra o trabalho (ditadura do capital sobre o trabalho), do imperialismo (e da oligarquia) contra a imanência (devir) povo, o personagem coletivo do excluído, o povo do porvir. Palavras chave: inconsciente social; estado de exceção; bio(tanato)política; vida nua; literatura e democracia. 1  –   Introdução: Num período de literaturas pós-autônomas, conforme definido por Josefina Ludmer, em  Aqui,  América Latina : Uma especulação (2013), e tendo em vista a crise estrutural do capitalismo contemporâneo, datada desde a década de 1960 por Istvan Mészáros, na obra Para além do capital   (2002), que reflete sobre a “quebra do encanto do capital permanente universal” e a “ordem da reprodução sóciometabólica do capital”, cada vez mais influenciando sucessiva s e inexoráveis crises do capitalismo internacional globalizado, com consequências ecossistêmicas, uma vez habitarmos um planeta com recursos finitos, consideramos hodierna e, portanto, necessária, uma abordagem dialógica (e por quê não, dialética?!) entre a literatura (desde o modernismo), e a política, a fim de pensarmos o inconsciente social da modernidade, na sociedade brasileira do período da Primeira República, marcado pelo intenso antagonismo na relação entre o capital e o trabalho, mediante a obra de Lima Barreto. Visando este intuito, posicionamo-nos de forma contrária à concepção hegemônica dentro do "campo acadêmico da literatura” (Bourdieu, 1983), que acredita numa relação entre a autonomia da literatura e a política. Relação que, como dissera o sociólogo Pierre Bourdieu (2004), seria marcada por uma illusio , naturalizando as relações de força, poder (político, econômico, cultural, epistemológico,  Universidade Federal do Espírito Santo Programa Institucional de Iniciação Científica Relatório Final de Pesquisa Lingüística, Letras e Artes 2 simbólico), dominação e violência, na construção do campo literário introjetado pelos supostos operadores ou atores racionais, interessados no jogo, criação e recepção dos textos literários. Perseguimos os caminhos descritos no ensaio de Antonio Candido, O direito à literatura  (1995), no qual o autor de Formação da literatura brasileira (1975)   defende o direito universal e necessário à literatura, enquanto faculdade imanente do ser humano de fabular. Outrossim cogitamos sobre as suas acepções, partindo das obras: Formação da literatura brasileira  (1975) e  Literatura e sociedade (1965). Nesta última,  Literatura e sociedade (1965)  , Candido argumenta que a "literatura por incorporação”, no contexto da criação literária do modernismo brasileiro, consiste na indiscernível fronteira entre os campos literário e político, possibilitando-nos afirmar a interpenetração entre ciência, arte, cultura e pensamento crítico, (re)inventando os sentidos da vida quotidiana, as fabulações e a “constituição do comum” (Hardt, Negri, 2005).  Para alcançar esse objetivo, também dialogamos com Fredric Jameson, partindo da obra  Modernidade singular   (2005), ao afirmar que o modernismo ocidental (e planetário), percebido como o lado estético e cultural da Segunda Revolução Industrial, foi reescrito, (res)significado e (re)interpretado por uma  fictio  literária e um approach  teórico políticoideológico conservadores; além de Jacques Rancière, em  A partilha do sensível  (2005), argumentando que a dimensão autônoma e o lado político da criação literária (enquanto repartição dos corpos do mundo) são apresentados como parte de uma partilha do sensível, política e ideologicamente determinada de forma desigual, oligárquica (portanto racista), inscrevendo- se sob a rubrica do que ele denominou de “regime poético do mundo”.  Dessa forma, consideramos as inúmeras possibilidades de interpenetração entre ciência, arte e política, apregoadas pelo modernismo em Antonio Candido e Oswald de Andrade; a construção da disciplina sociologia do romance, conforme definida em György Lukács, como uma possibilidade de compreensão trans-histórica, trans-individual do ca mpo da literatura; a ideia de “pós - autonomia literária” em Josefina Ludmer (2013). A relevância e a contemporaneidade dos estudos literários que valoram a relação entre literatura & política, apresentados por autores como Jacques Rancière, em obras tais como:  A partilha do sensível (2005),  A política da ficção  (2014), O inconsciente estético  (2009); Friedric Jameson, nas obras:  Inconsciente político  (1999),  Modernidade singular   (2005),  As ideologias da teoria  (1988), Pós-modernismo e teorias culturais  (1987); Terry Eagleton, nos escritos:  A significação da teoria  (1989),  Nacionalismo, colonialismo e cultura  (1990), O evento da literatura  (2012); Peter Sloterdijk, no livro Crítica da razão cínica  (2012). Reputamos importância às reflexões sobre os estudos literários contemporâneos, em épocas de pós- autonomia literária, cogitando o desdém do “plano de transcendência” (Deleuze ; Guattari, 2008) pelo “plano de imanência” (Deleuze, Guattari, 2008),  na história do país, enfatizando o período da República Velha, mediante a crítica da produção literária de Lima Barreto, uma “alteridade” (Deleuze ; Guattari, 2008) pobre e negra, morador dos subúrbios do Rio de Janeiro. Conjecturamos que o “inconsciente político” (Jameson, 1999) emergente na criação literária de Lima Barreto é o racismo social, definindo um “estado de exceção” (Agamben, 2004)  dentro de uma tradição “bio(tanato)política” (Agamben, 2010), perpetrado contra a “vida nua” (Agamben, 2010) das alteridades inscritas nas classes subalternas, a quem designamos c omo “proletariado” (Marx, 1998;  Universidade Federal do Espírito Santo Programa Institucional de Iniciação Científica Relatório Final de Pesquisa Lingüística, Letras e Artes 3 Rancière, 1995), subproduto da relação capital/trabalho, que registra esse desdém da “transcendência” (Deleuze, Guattari, 2008) pela “imanência” (Deleuze, Guattari, 2008), conforme sinaliza o romance Triste Fim de Policarpo Quaresma (2008). Estado de exceção que, no Brasil coetâneo, instaura um golpe de Estado jurídico-burocrático, parlamentar e policial autoritário, acarreando um processo de impeachment da gestão petista e abrindo caminho para privatizações radicais, consoante intelectuais públicos e veículos de mídia (inter)nacionais vários. 2  –   Objetivos Objetivo geral Analisar o romance Triste fim de Policarpo Quaresma , a partir de uma perspectiva sócio-histórica que desvela o inconsciente social do período, evidenciando a relação entre a transcendência/capital e a imanência/trabalho, na produção de um estado de exceção que atravessa a vida nua do personagem coletivo do excluído, comparando o período da Primeira República com o Brasil contemporâneo. Objetivos específicos Analisar a obra Triste fim de Policarpo Quaresma , tendo em vista a formação cultural, econômica, histórica e política da sociedade brasileira na República Velha, enfatizando a relação entre o capital e o trabalho. Mostrar como a vida nua do excluído coletivo é apresentada e representada por Lima Barreto, no romance social específico. Comparar a situação desse personagem coletivo do excluído, ontem (na Primeira República) e hoje.   3  –   Metodologia Nas obras  Em defesa da sociedade  (2005) e a  História da sexualidade  (1999), Michel Foucault descreve os agenciamentos de poder efetuados pelos Estados-nação modernos que utilizam o biopoder e a biopolítica enquanto estratégias de governamentalidade, basicamente um dispositivo composto por uma dupla pinça, caracterizado pelo eixo anatomopolíticoindividual (microssocial) que influencia na dimensão da produção (confissão) das identidades, operando como uma “máquina de rosto”  (Deleuze, Guattari, 2008) que configura um “ muro branco ” (Deleuze, Guattari, 2008)  ou um “aparelho de captura”  (Deleuze, Guattari, 2008), inscrustrado de “ buracos negros ” (Deleuze, Guattari, 2008) , ou seja, fluxos de subjetividades capturadas, inclusive através do “poder pastoral”  (Foucault, 2010); ademais do eixo que atua no orbe da biopolítica de população (escala macrossocial), constituindo uma “ máquina de soberania ”  que agencia e disciplina o corpo social em escala territorial. Observamos um Estado- nação como uma forma de “estado da situação”, segundo Alain Badiou  (1996) , isto é, uma “máquina de produzir transcendência” ou um soberano que agencia fluxos de alteridades, singularidades e multiplicidades, produzindo a vida nua através da tradição biopolítica que institui um poder de “fazer morrer e deixar viver” nas “sociedades de soberania”, descritas por Foucault no livro Vigiar e punir   (1987 ), e inversamente, um poder “de fazer viver e deixar morrer” nas sociedades disciplinares, segundo o autor de Genealogía del racismo  (1992).  Universidade Federal do Espírito Santo Programa Institucional de Iniciação Científica Relatório Final de Pesquisa Lingüística, Letras e Artes 4 Considerando que na Teologia política (2009), Carl Schmitt afirma que o soberano é aquele quem decide o estado de exceção, acepção apropriada por Agamben, no livro  Homo sacer  : o poder soberano sobre a vida nua (2010), onde argumenta que um “ poder nu ” (Russel, 2015) , ou seja, um poder de caráter violento e ilegítimo exercido por um Leviatã hobbesiano contra atores sociais ou alteridades presentes na sociedade civil, segmenta a vida humana, a princípio, uma vida suficiente ou bem viver orientado pelo telos  da felicidade, potência do homo politicus  inscrito na polis, segundo a concepção de Aristóteles apresentada em sua ética nicomaquéia, produzindo uma “vida nua” ou “sacra”  (Agamben, 2010), não-sacrificável e matável, uma vida tabuizada sujeita ao homicídio a qualquer momento, onde o possível algoz estaria isento dos ritos e rigores da lei. Uma vida violada, reificada e roubada, reduzida à coisa ou ao gado humano violentado ( musulman  agambeniano) nos campos de concentração, que simetricamente ocupa um locus  oposto a este poder soberano e, assim designa um racismo social (institucionalizado), desdobrando- se tanto em “racismo de Estado”  (Foucault, 2005) , uma espécie de racismo de classe, dado que o “aparato de Estado” é um dispositivo atravessado pela dimensão agonística das classes sociais em conflito de interesses, conforme a definição de Louis Althusser, na obra  Ideologia e aparelhos ideológicos do Estado  (1970), caracterizando uma espécie de “metafísica da ascendência”  (Soares, 2008), definida como a relação que designa (também um subproduto de) um desdém da imanência pela transcendência; quanto um “ terrorismo de Estado ” , categoricamente descrito por Gianfranco Sanguinetti, no livro  Do terrorismo e do Estado  (2003), executado contra as populações das periferias brasileiras, conjurando uma situação socialmetabólica que descreve um excesso do uso da força que virtualmente se torna lei, força-de-lei ou autoritas , enquanto a lei propriamente dita ou  potestas  perde a sua força ou a substancialidade neste interstício que caracteriza um vazio ou uma ausência no âmbito do direito adotado pelo Estado brasileiro, consoante a definição de Agamben apresentada na obra  Estado de exceção  (2004). Dessa forma, investigaremos o romance Triste Fim de Policarpo Quaresma  (2008), cotejando-o com a referida formação cultural, econômica, histórica, política e social da República Velha, utilizando o método existencialista sartriano, definido na obra Questão de método (1979)   de Jean-Paul Sartre, ou seja, um método materialista, histórico, heurístico, progressivo-regressivo, portanto dialético, visando cogitar, tanto sobre a produção da obra literária no seio da conjuntura sócio-histórica, política, econômica e cultural da Primeira República, quanto o reverso, ou seja, como o referido arranjo é apresentado e representado no respectivo artefato cultural: O método existencialista [...] quer permanecer heurístico. Não terá outro meio senão o "vaivém": determinará progressivamente a obra literária [...], aprofundando a época [processo sócio-histórico], e a época, aprofundando a obra literária [...]. Longe de procurar integrar logo uma à outra, mantê-las-á separadas até que o envolvimento recíproco se faça por si mesmo e ponha um termo provisório na pesquisa. [Assim] Tentaremos determinar na época o campo dos possíveis [...] (Sartre, Questão de método, pp. 170-171). A partir das fabulações literárias em Policarpo Quaresma, construiremos uma cartografia de indícios que remontam o inconsciente social do período histórico designado, visando cogitar a relação entre a transcendência e a imanência (ou seja, a relação entre o capital e o trabalho), a fim de ponderarmos sobre a questão social e o estado de exceção que atravessa o personagem coletivo do excluído, retratados pelo autor da  República dos Bruzundangas .  Universidade Federal do Espírito Santo Programa Institucional de Iniciação Científica Relatório Final de Pesquisa Lingüística, Letras e Artes 5 Acreditamos que a “(an)arqueologia” (Foucault, 1972; Avelino, 2010b) nos ajudará a analisar determinados “dispositivos de verdade” (Foucault, 1972) respeitantes à construção da dinâmica da governamentalidade do Estado brasileiro na República Velha, marcada por uma “bio(tanato)política” (Agamben, 2010) que constitui um poder soberano sobre a vida nua dessas alteridades violadas, caracterizando um estado de exceção que assalta as formas-de-vida sacras, homo sacer  , na Primeira República e no contemporâneo. 4  –   Resultados e Discussões A história social, política, econômica e cultural da República Velha (1889-1930) é caracterizada por um miríade de conflitos sociais, haja vista as grandes greves insurrecionais protagonizadas pelo movimento operário revolucionário nos idos de 1907, 1910, 1917, 1920, 1922, as Revoltas ou guerrilhas de Boa Vista no Tocantins (1892-1894, 1907-1909); as Revoltas da Armada (1893-1894), a Revolução Federalista do Rio Grande do Sul (1893- 1895), as Guerras (“messiânicas” e populares contra o latifúndio) de Canudos ( 1893-1897) e do Contestado (1912-1916), a Revolta da Vacina ocorrida nos subúrbios do Rio de Janeiro (1904), a Revolta da Chibata (1910), a Sedição de Juazeiro (1914), A Insurreição dos Anarquistas no Rio de Jane iro (1918), a “Revolução Libertadora” (1923), etc.; rebeliões que antanho foram orquestradas, ora pelo proletariado militante, que nos dizeres do anarquista espanhol Anselmo Lorenzo, fora insuflado por concepções socialistas, anarquistas ou comunistas, ora por frações ou corporações associadas às camadas médias da sociedade e (ou) às oligarquias, tais como as engendradas por militares tenentistas da Revolta dos Dezoito do Forte de Copacabana (1922), atormentados pelas abstrações ou fantasmas da “Sagrada Família” liberal -positivista e republicana. Efervescências sociais cujos inconscientes político, social, maquínico, estético, esquizoanalítico e estrutural, ancoram-se num intenso antagonismo na relação capital/trabalho, postulando a constituição de uma “axiomática [mortuária]” (Deleuze, Guattari, 2008), quer dizer, uma solução (inclusive militar, a da via prussiana) do capital e de sua “forma - mercadoria” (Marx, 1996) - o Estado moderno oligárquico-burguês, que apresenta (e também representa) a conjunção de ex tratos da “burguesia nacional” com o imperialismo inter- nacional (euronorteamericano), na construção de uma amálgama de “tecnologias de  poder” para a constituição da “governamentalidade” (Foucault, 2010), modulada através da forma (ou seria da fôrma) da “política das oligarquias” sob a narrativa ou a  fictio  políticoideológica e positivista da “Ordem e Progresso”, recopilada como certos princípios e métodos de “racionalização” do exercício do governo, consoante o logos  do metabolismo ampliado do capital; re questando o uso do “Aparato Repressivo de Estado [A.R.E.]” (Althusser, 19 70), principalmente o aparelho policial-militar das Forças Armadas, contra opositores políticos e estratos da classe trabalhadora, em campanhas com o objetivo de esmagar movimentos, organizações, vilas e povoados de trabalhadores rurais e urbanos que, acoimados de messiânicos e (ou) apedeutos, estiveram imbuídos de “devires histéricos” (Lacan, 1992), periclitando o todo poderoso deus capital, arrojando perspectivas laicas de afirmação da vida humana e da constituição do comum, tais como as ocorrências nos sobrecitados arraiais de Canudos e do Contestado, que ansiavam pela instauração de paraísos (milenaristas) na terra.
Related Search
Advertisements
Related Docs
View more...
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks