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Um contributo para o conhecimento historiográfico da vila de Gouveia, segundo as Memórias Paroquiais de 1758

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As Memórias Paroquiais fornecem preciosos detalhes sobre a geografia do reino português, no século XVIII. Com o intuito de aperfeiçoar o conhecimento da História Regional, e particularmente a História da Beira Alta, este trabalho de investigação
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  Universidade de Lisboa - Faculdade de Letras Licenciatura em História Ano Lectivo : 2014/2015 Unidade Curricular :   História Moderna (Economia e Sociedade)   Um contributo para o conhecimento historiográfico da vila de Gouveia na Época Moderna (segundo as "Memórias Paroquiais" de 1758) Professor Auxiliar da Unidade Curricular: Doutor João Ramalho dos Santos Cosme; O aluno: Carlos Daniel Gonçalves Pereira, n.º 50373. Lisboa, 28 de Maio de 2015  [Um contributo para o conhecimento historiográfico da vila de Gouveia na Época Moderna (segundo as "Memórias Paroquiais")] 1   Introdução  As Memórias Paroquiais, no seu conjunto, são fundamentais para construir uma imagem mais concreta, daquilo que era a realidade portuguesa em meados do século XVIII dentro do panorama histórico-cultural e de determinados aspectos relacionados com a personalidade, que acabaram por chegar até aos nossos dias. A partir de um  panorama mais concreto, vamos debruçar-nos na questão de um território que possui grande centralidade devido à sua proximidade com Castela, referimo-nos ao Distrito da Guarda e, mais concretamente, à antiga vila de Gouveia. A evolução é bastante notória nesta região através de dois acontecimentos fulcrais que tiveram repercussões locais e territoriais, profundas marcas que condicionaram o futuro, conforme nos explicam os  párocos nos seus extensos e desenvolvidos testemunhos, de cariz belicista: a guerra da Aclamação do Rei D. João IV e Independência de Portugal (1640-1668) e a guerra de Sucessão de Espanha (1702-1714). As consequências foram evidentes, sobretudo pela imparável desertificação e abandono que se verificou. A economia entrou em regressão, o tráfego comercial foi cada vez menor também devido a características não mediatas, ou seja, decorrem da geografia e do clima que impera na Zona Interior Centro de Portugal Continental: território extremamente seco e árido, temperaturas díspares com Invernos e Verões muito rigorosos.  Num quadro geral, sabemos que a maior parte do terrenos serão destinados ao cultivo do centeio (ainda que pobre), do trigo (apesar da sua presença ser menos relevante) e do milho grosso de regadio. Realça-se a cultura da batata e as produções de floresta e rios que asseguram a sustentabilidade destas comunidades. As actividades comerciais são menos importantes devido à pequena projecção que tinham nos centros urbanos, pela ausência de contactos com os restantes mercados e a omnipresença da guerra. As muralhas, as praças militares, os pelourinhos e determinados equipamentos religiosos conseguiram contornar o retrocesso e dotar as vilas e cidades de alguma dinâmica 1 . Transportar todas estas características, para aquilo que era considerado o Portugal de Antigo Regime e estabelecer um paralelismo com a História Local, à luz da economia e da sociedade da Época Moderna serão alguns dos objectivos relevantes a que este trabalho de investigação se propõe. PALAVRAS-CHAVE: Memórias Paroquiais, Gouveia, São Pedro, São Julião. 1  CAPELA, José Viriato e MATOS, Henrique,  As freguesias do Distrito da Guarda nas Memórias  Paroquiais de 1758 .  Memórias, História e Património . Colecção Portugal nas Memórias Paroquiais de 1758, Braga, Minhografe - Artes Gráficas, 2013, pp. 9-10.  [Um contributo para o conhecimento historiográfico da vila de Gouveia na Época Moderna (segundo as "Memórias Paroquiais")] 2   Organização social, administração e estrutura económica das duas freguesias da vila de Gouveia: São Julião e São Pedro. As Memórias Paroquiais de 1758 foram redigidas com auxílio de inúmeros  párocos de todo o território continental, que recorriam à prática do inquérito para obterem informações fidedignas sobre o conhecimento geográfico do reino português. O modelo de interrogatório era composto por vinte e sete questões, formuladas de acordo com a realidade da época. Desta forma, e num contexto mais particular, tentaremos comentar os aspectos que são pertinentes conforme a documentação que chegou até nós. Relativamente às freguesia de São Julião, sabemos que ela está integrada no concelho de Gouveia, no Bispado de Coimbra e na Comarca da Guarda, ficando localizada na região da Beira Alta. Possui uma Igreja Matriz com sacrário, a freguesia de São Julião tem mais de duzentos anos e a de São Pedro ainda é mais antiga, sendo desconhecida a datação concreta. A partir da informação que nos é facultada, temos ideia de que D. José autorizou o referido pároco a desempenhar as suas funções como sacerdote desde o ano de mil setecentos e cinquenta e dois. Quanto às características populacionais, a freguesia é ocupada por cento e oito vizinhos e quatrocentas e quarenta pessoas. Este número é plausível, contudo, é importante realçar a sua natureza que envolve preceitos religiosos como é o caso do rol dos confessados, ou seja, o valor exacto é deduzido a partir da Quaresma, estando afastado de qualquer observação pelas autoridades civis. O lugar de São Cosme de Alrrote detém um pároco que está encarregue da distribuição do pasto espiritual. O  pároco retira todos os anos em frutos certos cerca de cento e setenta mil réis, mais cinco menos cinco mil réis depois de o pároco ter auferido a pensão. O mesmo relator faz alusão à instalação de uma Companhia de Padres nesta mesma vila, que acabou por impedir a Igreja de fazer cobrança de impostos, nomeadamente o dízimo, sobre terras da sua jurisdição. Em Rio Torto existem cinquenta propriedades cultivadas pelos  paroquianos, os dízimos são recolhidos pela Companhia supra citada que poderia obter lucros de cinquenta mil réis ou mais. O pároco de São Julião recebe ainda duzentos mil réis concedidos pelo Papa Bento XIV. Aqui fica localizada a capela de São Mamede.  Nos aspectos económicos, a maioria das actividades comerciais baseava-se na  produção agrícola e hortícola. São colhidas quantidades apreciáveis de milho, feijão e centeio. Somos confrontados no final da descrição com uma tradição que envolvia a vila de Manteigas e Gouveia. No dia de São João Baptista, os manteiguenses deveriam encher um púcaro de água na fonte de São Pedro e levá-lo às escadinhas do Pelourinho  [Um contributo para o conhecimento historiográfico da vila de Gouveia na Época Moderna (segundo as "Memórias Paroquiais")] 3   da vila precedente, logo pela manhã jurando ter sido consumida a água depois da meia-noite. Além disso, teriam de levar consigo a quantia de duzentos e cinquenta réis, para que pudessem pastar com o gado nas partes limítrofes dos dois concelhos serranos, ficando livres de qualquer punição. O próprio pároco confirma que a celebração deste contrato é recorrente e é uma prática muito antiga 2 . Concentremos as nossas atenções na freguesia de São Pedro. As características ligadas ao foro administrativo mantêm-se, porém, o pároco introduz um novo elemento: a sua localização geográfica - Beira Alta e associação ao Mosteiro de Santa Clara de Coimbra. Na sua datação histórica, somos confrontados com a informação de que São Pedro remonta aos princípios do século XVII, cento e cinquenta anos antes da realização do inquérito 3 . A vila está sob a alçada do rei (refere-se concretamente a D. José I) e nela existe a tradição de que os marqueses de Gouveia foram donatários. Nas questões populacionais, o agregado é representado por duzentos e quarenta vizinhos e novecentas e vinte pessoas. Geograficamente, está situada na zona montanhosa da Serra da Estrela através da qual é possível observar as demais freguesias que compõem o concelho gouveense. A Igreja paroquial está situada no centro da cidade e o padroeiro da mesma é o Apóstolo São Pedro. O sacerdote refere a necessidade de uma intervenção  premente no edifício religioso, os planos de restauração estão delineados e orçados em nove ou dez mil réis, pagos pela população local.  Na parte sul existe um convento de religiosos que pertencem à Ordem de São Francisco, também designado por Convento do Espírito Santo e cujos aspectos arquitectónicos estão ligados aos Templários, não tem orago e é muito antigo, contudo, sofreu algumas obras para conservação patrimonial. A Nascente fica situado o Colégio da Companhia de Jesus, em perfeitas condições e que terá sido fundado por António de Figueiredo Pereira. Nele habitam alguns professantes, não há um valor exacto sobre as rendas, mas estas poderão chegar aos sete ou oito mil réis anuais. Possui um hospital sob a orientação do provedor da Santa Casa da Misericórdia de Gouveia que tem mais de duzentos anos, todos os anos é cobrada uma renda no valor de cem mil réis. Podem ser encontradas indicações a várias capelas dentro da freguesia de São Pedro, nomeadamente, Nossa Senhora de Vera Cruz, São Lázaro, Senhora do Porto, Santa Cruz, São Mamede, São Miguel e São João Baptista. No interior da Igreja de São Pedro estão três capelas particulares: Santo António, Senhora dos Prazeres e Senhora da Alegria. 2  Cf.  Ibidem ,  Idem , p. 308-309. 3  Tendo em conta que as "Memórias Paroquiais" começaram a ser redigidas em 1758, é provável que São Julião tenha sido constituída como freguesia em 1608. As datas que os párocos apresentam em cada documento são distintas.  [Um contributo para o conhecimento historiográfico da vila de Gouveia na Época Moderna (segundo as "Memórias Paroquiais")] 4   Economicamente, as actividades são de cariz agrícola, recolhem-se milhos e centeios, predominando também o sector manufactureiro, particularmente com a indústria dos lanifícios. O poder local e judicial é gerido por um juiz, uma câmara e uma cadeia, sob autoridade dos corregedores da Guarda. A edilidade gouveense usufrui da regalia de a vila de Manteiga todos os anos lhe mandar por altura do São João a quantia de duzentos e cinquenta réis de feudo e um púcaro de água da fonte de São Pedro. Caso recusassem o pedido estipulado ficariam impedidos de pastarem com os rebanhos na Serra da Estrela. Todas as semanas é realizado um mercado e uma feira, normalmente às quintas-feiras, livre de tributação. Existe serviço de correios, chegando a correspondência de Viseu ao Domingo e com retorno ao Sábado de manhã 4 . Imprescindível é o chamado "Monte Aljão" no desenvolvimento da agricultura. Cobre um extenso complexo territorial (uma légua de longitude e meia de latitude) e é ladeado pelo Rio Mondego. Pertence aos moradores do concelho e está repartido em courelas, conforme o número de habitantes que o utilizem. O seu aproveitamento é regulamentado por um sorteio trienal a fim de que possa ser desfrutado por todos. Chega a render anualmente duas mil medidas de centeio e os pastos abonam a favor da vila, da calçada e para as fábricas das duas igrejas e misericórdia concelhia. Na parte sul de Gouveia (distante a três léguas) nascem três importantes rios: Mondego, Alva e Zêzere. Na parte nascente nasce uma ribeira que percorre o meio da vila, auxiliando a fertilização das várias plantações. Em redor estão situadas quinze casas de moinhos,  pisões e tinturarias. A Sociedade e a Economia da vila de Gouveia na Época Moderna Até ao momento actual da redacção deste trabalho, viemos a analisar os aspectos económicos e sociais das duas freguesias que integravam a vila de Gouveia (São Julião e São Pedro). Focalizemos, a partir de agora, a nossa atenção, numa perspectiva mais abrangente sobre a realidade gouveense no seu todo, nos alvores do Antigo Regime  português. Em Gouveia funcionava a sede concelhia, juntamente com um termo e dez  judiarias. Numericamente, a vila atingiria os cento e setenta quilómetros quadrados de superfície, albergando diversas freguesias nos vales escarpados e nas planícies. No que diz respeito à constituição do tecido populacional, a vila detinha 358 fogos, ou seja, dos 1647 fogos apurados, cerca de um quinto da população residia na sede do concelho 5 . A  par desta estratificação social havia um intenso dinamismo económico ligado, 4    Ibidem ,  Idem , pp. 310-311.   5  NETO, Margarida Sobral, "A vida económica e social de Gouveia na Época Moderna. Um contributo  para o seu estudo",  Revista Portuguesa de História , t. XXXV, Coimbra, 2001-2002, p. 248.
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