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ASPECTOS EPISTEMOLÓGICOS SUBJACENTES A ESCOLHA DA TÉCNICA DO GRUPO FOCAL NA PESQUISA QUALITATIVA EPISTEMOLOGICAL ASPECTS UNDERLYING THE CHOICE OF FOCAL GROUP TECHNIQUE IN THE QUALITATIVE RESEARCH

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RESUMO Nas abordagens qualitativas de pesquisa, a técnica do grupo focal é muito utilizada e, portanto, é necessário aprofundar a reflexão sobre os paradigmas que orientam a escolha deste instrumento. Neste artigo, o objetivo é elucidar aspectos
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  260 Revista de Psicologia da IMED, vol.1, n.2, 260-268, 2009 ASPECTOS EPISTEMOLÓGICOS SUBJACENTES A ESCOLHA DA TÉCNICA DO GRUPO FOCAL NA PESQUISA QUALITATIVA Luciane Najar Smeha 1  RESUMO Nas abordagens qualitativas de pesquisa, a técnica do grupo focal é muito utilizada e, portanto, é necessário aprofundar a reflexão sobre os paradigmas que orientam a escolha deste instrumento. Neste artigo, o objetivo é elucidar aspectos epistemológicos subjacentes à escolha da técnica dos grupos focais na pesquisa qualitativa, além da apresentação e discussão da utilização dessa técnica e os pressupostos éticos que embasam o pesquisador na prática de coleta de dados com grupo focal. Ao finalizar, salienta-se a necessidade de congruência e a interdependência entre os aspectos ontológicos, epistemológicos e éticos na escolha dos métodos e instrumentos de pesquisa. Palavras - chave:   Grupo focal, pesquisa qualitativa,   epistemologia.  EPISTEMOLOGICAL ASPECTS   UNDERLYING THE CHOICE OF FOCAL GROUP TECHNIQUE IN THE QUALITATIVE RESEARCH   ABSTRACT In The research qualitative approaches, the focal group technique is often used and, thus, it is necessary to deepen the reflections about the paradigms that guide the choice of this instrument. In this article, the objective is to elucidate epistemological aspects underlying the choice of the focal group technique in the qualitative research, besides the presentation and discussion of the use of this technique and the ethical assumptions which support the researcher in the data collecting process with a focal group. At the end, the congruence necessity and the interdependence between the ontological, epistemological and ethical aspects are highlighted in the choice of the research method and instruments. Key-words: Focal group, qualitative research, epistemology.   1  Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUCRS. Docente no curso de graduação em psicologia da UNIFRA.  A Escolha da Técnica do Grupo Focal 261 Revista de Psicologia da IMED, vol.1, n.2, 260-268, 2009 Introdução Ao se iniciar um projeto de pesquisa científica, a primeira idéia é procurar um método “ótimo” de fazer pesquisa. No entanto, como colocam Bauer, Gaskell e Allum (2002), este método ótimo não existe, não passa de uma ilusão idealizadora. O que existe, no campo das ciências sociais e, portanto, na Psicologia, é um caminho reflexivo rumo à construção do projeto. E este caminho passa pela consciência adequada dos diferentes métodos existentes, suas vantagens e limitações e, principalmente, suas bases ontológicas e epistemológicas. Nesse contexto, por sua vez, adeptos da pesquisa qualitativa têm se empenhado em demarcar um território legítimo para esse tipo de metodologia, em virtude dos critérios de cientificidade que predominaram, durante anos, na Psicologia, sempre relacionados à pesquisa quantitativa. Como referem Cassell e Symon(2004), os procedimentos qualitativos surgem, num primeiro momento, sempre afirmando sua identidade por meio da oposição aos procedimentos quantitativos. Em conseqüência disso, citam Bauer, Gaskell e Allum(2002) , ocorreu uma “hipertrofia epistemológica”, isto é, pouco se tem falado sobre como fazer pesquisa qualitativa. Por outro lado, esses autores também afirmam que dentro do embate qualitativo x quantitativo, o interesse do pesquisador deve, cada vez mais, se voltar para questão da geração de dados, para os procedimentos de coleta de dados e sua qualidade. A escolha quantitativo ou qualitativa é, também, uma escolha sobre a coleta de dados e sua análise. Para Silva (1998), o confronto não está localizado nas estratégias quantitativas ou qualitativas, mas nos paradigmas que orientam essas práticas de pesquisa. Dessa forma, a verdadeira oposição está nas diferentes visões de mundo e de ser humano. Então, parece primordial que o pesquisador tenha clareza dos fundamentos epistemológicos e ontológicos que sustentam seu objeto de estudo, para delinear os procedimentos mais adequados e coerentes para a operacionalização da pesquisa. Muitas são as referências, na literatura em pesquisa qualitativa, sobre grupo focal,  justificadas pelo seu crescente uso como técnica de pesquisa. Desde 1920, o grupo focal é utilizado nas pesquisas em marketing e na década de 70 e 80 foi amplamente empregado nas pesquisas em comunicação. No início de 1980, a técnica é redescoberta e adaptada como meio de pesquisa, nas ciências sociais e humanas(Gatti,2005). Em geral, há um consenso na literatura (Gondim, 2002; Kind, 2004; Veiga & Gondim, 2001) acerca da definição de grupo focal. É uma técnica de pesquisa que coleta dados por meio das interações grupais ao se discutir um tema sugerido pelo pesquisador. Pode ser caracterizado também como um recurso para compreender o processo de construção das percepções, atitudes e representações sociais de grupos humanos. Os grupos focais são fundamentados na tradição dos trabalhos em grupo, da sociologia e da psicologia social crítica. No entanto, a literatura (Gondim,2002; Kind,2004) aponta para a necessidade dos pesquisadores, não somente descreverem os procedimentos do grupo focal e seus resultados, mas refletirem, criticamente, sobre esta abordagem hermenêutica de coleta de dados, demarcando seus limites e possibilidades. Há necessidade de reflexão acerca dos paradigmas subjacentes à escolha da técnica de coleta de dados, previamente à sua utilização numa pesquisa científica. Por isso, este artigo, propõe-se a elucidação, das bases epistemológicas, dos aspectos práticos e éticos  A Escolha da Técnica do Grupo Focal 262 Revista de Psicologia da IMED, vol.1, n.2, 260-268, 2009 que envolvem a escolha da técnica de grupo focal na pesquisa qualitativa. Acredita-se que tais reflexões sejam fundamentais para que se possa fazer não só um uso criterioso desta técnica de coleta de dados, na pesquisa, em Psicologia, bem como planejar uma análise coerente dos dados obtidos. Acredita-se que estas reflexões sejam fundamentais para que se possa fazer um uso criterioso da técnica, bem como planejar uma análise coerente dos dados obtidos. Grupos Focais: Caracterização e Aspectos Práticos O grupo focal é uma técnica que favorece o aprofundamento de pesquisas sobre fenômenos sociais, por meio da expressão dos próprios investigados. Contudo, para que este instrumento seja eficaz, Roso(1997) aponta à importância do pesquisador estar preparado para coordenar o trabalho em grupo e analisar o material colhido. Nesse momento, a condução do trabalho será apoiada pelos pressupostos epistemológicos e éticos que orientam o pesquisador. Ele assume uma posição de facilitador do processo de discussão e sua ênfase está nos processos psicossociais que emergem, ou seja, no jogo de interinfluências da formação de opiniões sobre um determinado tema. Portanto, a unidade que analisa é o próprio grupo. Para efeitos de análise e interpretação, mesmo as opiniões individuais, únicas, são consideradas como sendo do grupo. O grupo focal utiliza a interação grupal para produzir dados e insights  que não seriam possíveis fora do grupo, dada a sua potencialidade de construção de significações. Então ele busca apreender e analisar um saber que também se constrói durante o grupo. Sendo assim, a opção do pesquisador por este instrumento elucida a forma como ele entende as possibilidades de acesso à realidade, assim como a sua compreensão sobre como ela se constitui. O pesquisador ou moderador do grupo tem um importante papel, do qual ele deve estar consciente. No andamento do grupo, nas suas intervenções para facilitar a discussão, e ao acompanhar o aprofundamento dessa, ele   deve   formular interpretações e averiguar se elas fazem sentido para o grupo. É com base nisso que se afirma que há uma construção no processo de pesquisa, pois o pesquisador como moderador tem chance de avaliar a pertinência de suas explicações e concepções teóricas junto ao próprio grupo. Isso o levará a reorientar ou confirmar sua interpretação, abordagem congruente em uma perspectiva qualitativa, em que ele está implicado no processo de pesquisa (Gondim, 2002). O grupo focal permite, conforme Gatti (2005), a emergência de multiplicidades de pontos de vista e processos emocionais ancorados na experiência cotidiana dos participantes, além da obtenção de quantidade substancial de material em um curto período de tempo e a captação de significados, que é favorecida por meio da interação entre os participantes. Em sua revisão da literatura Gondim (2002) constatou que, no âmbito da pesquisa, o grupo focal pode ser uma técnica complementar, utilizada em um estudo preliminar para posterior construção de instrumentos tais como escalas e questionários pode ser usado em pesquisas que utilizam múltiplas técnicas qualitativas, tais como grupo focal, observação participante e entrevista em profundidade ou pode ser um grupo auto-referente, quando utilizado como técnica única. Os grupos focais auto-referentes servem a uma variedade de  A Escolha da Técnica do Grupo Focal 263 Revista de Psicologia da IMED, vol.1, n.2, 260-268, 2009 propósitos, não só para explorar novas áreas pouco conhecidas pelo pesquisador, mas Também para aprofundar e definir questões de outras bem conhecidas, responder a indagações de pesquisa, investigar perguntas de natureza cultural e avaliar opiniões, atitudes, experiências anteriores e perspectivas futuras. O tipo de grupo a ser utilizado, bem como outras características do grupo como a composição, número de participantes, homogeneidade ou heterogeneidade dos participantes, recursos tecnológicos utilizados, local da realização e diretividade ou não-diretividade do moderador só podem ser definidos de acordo com o nível de clareza que cada pesquisador tem sobre seus próprios propósitos. Os objetivos precisam estar nítidos para o pesquisador, mas para que isso seja possível, é imprescindível que ele conheça e tenha consciência do paradigma que alicerça suas crenças e funciona como fio condutor na execução de todas as etapas do seu projeto de pesquisa. Segundo Mazza, Melo e Chiesa(2009), é imprescindível que o pesquisador, durante a realização do grupo, tenha total domínio do tema em estudo. Na prática, quando utilizado como técnica de coleta de dados na pesquisa qualitativa, Kind (2004) ressalta que o grupo focal deve seguir duas diretrizes: a primeira é organizar pelo menos dois grupos para cada tema a ser investigado e a segunda envolve a realização de um número de grupos suficientes para que haja saturação do tema, evitando a superficialidade. No entanto, a autora salienta que mais importante que a quantidade é a qualidade dos grupos, que é garantida pelo papel do moderador e por um bom guia de temas para discussão. A organização e o planejamento criterioso refletem nos resultados, permitindo maior fidedignidade nos dados( Mazza, Melo & Chiesa, 2009; Ressel e cols, 2008). As limitações, riscos e dificuldades da técnica são apontadas por Gatti(2005), que aponta a preocupação com o grande volume de dados que emergem no grupo, para análise.Em contrapartida, a autora refere à potencialidades da técnica do grupo focal, em especial, o ganho para os pesquisados, por meio de uma possibilidade efetiva de diálogo e reflexão, permitindo uma compreensão mais aprofundada do tema. A socialização das experiências em grupo e a troca de informações, podem ser consideradas como uma vivência significativa e proveitosa para os participantes. Além disso, é necessário destacar o ganho para o pesquisador, com as experiências vividas no próprio grupo e diante da riqueza e abundância de material coletado. Em decorrência, a pesquisa ganha em qualidade por meio do aprofundamento da temática proposta como objeto de estudo. Portanto, o grupo focal é considerado uma técnica qualitativa por excelência, baseado numa proposta compreensivista e construcionista. De acordo com Rasera e Japur (2001), o construcionismo, nas palavras de um dos seus principais autores contemporâneos, Kenneth Gergen, é uma forma de investigação que se preocupa principalmente em explicar os processos pelos quais as pessoas descrevem, explicam ou dão conta do mundo no qual vivem. Logo, a utilização do grupo focal, pressupõe a premissa ontológica do pesquisador, na qual o ser humano não existe por si só no mundo real. O ser humano é dotado de capacidade de auto-reflexão e se constitui como tal nas suas interações sociais. O argumento exposto elucida a concepção de ser humano subjacente à escolha da técnica de grupo focal: o homem se constrói e é construído nos seus processos de interação.  A Escolha da Técnica do Grupo Focal 264 Revista de Psicologia da IMED, vol.1, n.2, 260-268, 2009 Não há como estabelecer uma linha divisória entre pesquisador e objeto pesquisado, pois ela seria ilusória (Denzin & Linconln, 1994; Rasera & Japur, 2001). Aspectos Epistemológicos Quais os pressupostos epistemológicos que permeiam a escolha do grupo focal para coleta de dados? Considerando que a abordagem metodológica deve refletir os paradigmas subjacentes, pretende-se a seguir apresentar pressupostos implicadas na escolha do grupo focal. Para iniciar, faz-se necessário trazer o conceito de paradigma segundo Guba e Lincoln(1994), paradigma é um conjunto de crenças básicas que tratam de princípios elementares ou mais profundos e representa a visão do mundo que cada um tem, da sua natureza e do lugar que o ser humano ocupa no mundo. A epistemologia, por sua vez, preocupa-se com modos pelos quais se pode conhecer o mundo e com a relação entre o pesquisador e seu objeto. Considerando as abordagens compreensivista e construcionista, nas quais pode ser inserida a técnica do grupo focal; o modo de conhecer o mundo ou a realidade é baseado, essencialmente, na construção desse conhecimento de mundo através da relação dialética que se estabelece entre pesquisador e pesquisado. Nesse contexto, não existe uma verdade a priori  para ser descoberta como no positivismo e sim, uma verdade a ser construída na relação que se estabelece no percurso da pesquisa. O objetivo aqui é reconstruir um significado, uma compreensão. Assim, deixam-se de lado os critérios de validade interna como o grau no qual os achados correspondem corretamente ao fenômeno estudado e validade externa ou grau, no qual os achados podem ser generalizados para outras amostras semelhantes à estudada e a atenção volta-se para a autenticidade. O que importa é quanto o estudo produz de conhecimento contextualizado historicamente, genuíno e que possibilite uma ação concreta no mundo. Assim, se  pressupõe que são múltiplas as possibilidade de “verdade”, assim  como múltiplas e complexas são as manifestações do ser humano (Denzin & Linconln, 1994; Rasera & Japur, 2001). As bases epistemológicas que definem o modo de construção do conhecimento são uma conseqüência imediata da definição de realidade(Gomes,1993). Utilizando o grupo focal como técnica, entende-se que os achados da pesquisa vão ser construídos no próprio grupo, pois obviamente eles não existem a priori  antes do grupo acontecer. No grupo focal, o conhecimento ou o objeto a ser conhecido pela pesquisa não existe como realidade situada para além das formas de dizê-la, mas são elas próprias maneiras de construção da realidade. O objeto de estudo não é visto como srcinado na mente individual de cada participante, mas é entendido como produzido nas relações entre os membros do grupo (Rasera & Japur, 2001). Nessa perspectiva, as implicações epistemológicas apontam que o grupo focal constrói a realidade que o pesquisador busca conhecer. De acordo com esse paradigma, há uma multiplicidade de realidades resultantes da construção do ser humano.O mundo real é uma construção de atores sociais, no caso os componentes do grupo focal, que significam e apresentam a realidade ao pesquisador.
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