of 18

O manuscrito da Crónica Geral de Espanha de 1344 da Academia das Ciências de Lisboa. Problematização em torno das questões da origem e da execução

4 views
All materials on our website are shared by users. If you have any questions about copyright issues, please report us to resolve them. We are always happy to assist you.
Share
Description
Depois de na década de 1950 Lindley Cintra ter realizado a edição crítica do texto português da Crónica Geral de Espanha de 1344, este manuscrito voltou a atrair as atenções de muitos investigadores a partir da década de 1990. Neste âmbito,
Tags
Transcript
  O manuscrito da Crónica Geral de Espanha de 1344   da Academia das Ciências de Lisboa. Problematização em torno das questões da srcem e da execução Catarina Tibúrcio Instituto de Estudos Medievais, FCSH-UNL catarina.tibrcio@gmail.com Resumo Depois de na década de 1950 Lindley Cintra ter realizado a edição crítica do texto português da Crónica Geral de Espanha de 1344  , este manuscrito voltou a atrair as atenções de muitos investigadores a partir da década de 1990. Neste âmbito, destacamos os trabalhos recentemente publicados de Horácio Peixeiro, Maria Pandiello Fernández e diversos textos que temos vindo a publicar sobre o tema. A apresentação que se segue pretende debater várias questões em torno da datação e da execução da iluminura deste manuscrito, confrontando as teses dos autores que o estudaram do ponto de vista artístico. O cruzamento de novos dados e perspetivas diversas que até à data se mantiveram isolados possibilitará o entendimento mais alargado destas matérias. Abstract Following Lindley Cintra ’s  critical edition of the Portuguese text of the Crónica Geral de Espanha de 1344 in the 1950’s , this manuscript has attracted the attention of many researchers and historians of art after the 1990's. In this context, we highlight the recently published works by Horácio Peixeiro, Maria Pandiello Fernández and other texts that we have been publishing on the subject. The presentation that follows is intended then to discuss the various issues surrounding dating and the execution of this manuscript illumination confronting the theses of authors who have studied it on the artistic point of view. The crossing of new data and different perspectives which until today remained isolated will enable a wide understanding on these matters. Palavras-chave: Crónica Geral de Espanha de 1344; manuscritos iluminados; Corte de Avis. Keywords: Crónica Geral de Espanha de 1344; illuminated manuscripts; Avis Court.   No que diz respeito à datação do manuscrito da Crónica Geral de Espanha de 1344  , da Academia da Ciências (M.S.A. 1), são poucos os dados concretos de que dispomos, mas ainda assim existem alguns dados que nos podem ajudar a formular hipóteses com alguma solidez. Sabe-se que o texto primário que estava a ser escrito no ano de 1344 (Cintra 2009, XXIII), por D. Pedro Afonso, Conde de Barcelos, foi mandado refundir no princípio do século XV. Fernão Lopes, guarda-mor da Torre do Tombo desde 1418, deve ter iniciado por essa altura a missão que lhe fora incumbida por D. Duarte, de  O   F ASCÍNIO DO G ÓTICO .   U M TRIBUTO A J OSÉ C USTÓDIO V IEIRA DA S ILVA   88  juntar todas as notícias respeitantes aos feitos dos reis de Portugal. Este, ainda infante, ordenara a Fernão Lopes a redação de uma Crónica de Portugal onde se reuniria a informação recolhida. Nesse labor, o cronista utilizou o texto da Crónica Geral de Espanha de 1344   como fonte principal. Sabemos hoje, através do estudo de Filipe Alves Moreira (2013, 154-156) que essa fonte primordial foi a primeira redação da Crónica de 1344  , o texto srcinal escrito pelo Conde de Barcelos, ou cópia dele. Por volta de 1 de Julho de 1419 começava-se a redigir a Crónica de Portugal  , sendo grande parte do seu texto resultante da extração da parte correspondente à história dos reis de Portugal do texto da primeira redação da Crónica Geral de Espanha de 1344  . Foi também no começo do século XV que o texto primitivo da Crónica de Espanha foi refundido (Cintra 2009, XL). O encomendador da segunda redação alterou-lhe propositadamente o discurso. O fundo pró-senhorial e de unificação ibérica que trazia de 1344 foi substituído por um louvor ao rei de cariz eminentemente nacionalista 1 . Se o srcinal da segunda redação foi escrito cerca de 1400, quando terá sido copiado o manuscrito de Lisboa da Crónica Geral de Espanha de 1344  ? Lindley Cintra, na sua edição crítica ao texto português da Crónica de 1344  , realça um facto importantíssimo que indicia qual terá sido a data de realização do manuscrito lisboeta. Diz o filólogo que o manuscrito de 1  Contrariamente às alegações de Horácio Peixeiro (2014a: 289), onde afirma que é curioso um texto de pendor senhorial   como o do códice da Academia apresentar um programa decorativo onde “ a presença do rei é dominante  ” ,  autores como Luís Filipe Lindley Cintra (2009, CDII-CDX e CDXVIII-CDXIX), Diego Catalán Menéndez Pidal ( Edición crítica del texto. 1971, XXI-XXX), Isabel de Barros Dias (2003, 93-118), e António Fournier (1996), explicam que existem grandes diferenças entre a primeira e a segunda redações da Crónica de 1344,  da qual o manuscrito da Academia é derivado. Chamam a atenção para a particularização do discurso da segunda redação da Crónica de 1344   na história da Península Ibérica (encurtando consideravelmente o passo da história universal proveniente da Crónica de Al-Razi) e, sobretudo, na história dos reis de Aragão e dos reis portugueses, por comparação com a primeira redação. Na história de Portugal, como nota Catalán, alonga-se a história de Afonso Henriques, onde se inverteu a imagem negativa do rei português no desastre de Badajoz propagandeada pelos textos castelhanos anteriores; justificou-se a ausência de D. Afonso II na Batalha de Navas de Tolosa; e hostilizou-se constantemente a dinastia castelhana, considerada ilegítima pelo autor da Crónica. No trabalho supracitado, Isabel Barros Dias fala-nos de uma intencional manipulação do texto na segunda redação da Crónica de 1344  , com o objetivo de alterar o fundo imperialista e pró-senhorial da primeira redação, por outro de cariz eminentemente nacionalista e de louvor à imagem do rei. Na segunda redacção da Crónica de 1344   e contrariamente ao que se passa na primeira redação, diz Isabel Dias que se procedeu ao resumo das narrativas que falavam sobre os reis de Castela e Leão, e ampliaram-se os relatos dos lados mais nebulosos dos monarcas castelhanos e leoneses (Dias 2003).  O  MANUSCRITO DA C  RÓNICA G  ERAL DE E SPANHA DE 1344    89 Lisboa não inclui, ao contrário de todos os outros manuscritos que se conhecem da Crónica, a história dos reis de Portugal (Cintra 2009, CDII-CDIII). Na parte do reinado de Afonso VII onde em todos os outros textos da Crónica se conta a história dos reis de Portugal, o copista diz: Mas desto e das cousas que acontecerom em sua vida, com todalas outras estórias dos reys de Portugal que depos el veherõ, nos nõ diremos aqui nada, mas contallas emos en fim deste livro por se entenderem melhor, posto que muitas cousas dellas fossem feitas en este tempo e as alguas estórias contem en este logar. (Cintra 2009, CDIV). No reinado de Fernando II de Leão, o copista omite o episódio de Badajoz escusando-se assim: Depois de todas estas cousas, as quaaes vos contaremos cõpridamente quando falarmos das estórias dos reis de Portugal.  No último fólio da Crónica de 1344   de Lisboa está uma nota, segundo Cintra, datada de finais do século XV, princípios do século seguinte, muito pouco nítida que diz: “ (…) ca que (…) yua cro (…) sem a cronica abreuiada de portugal  ” . Cintra conclui, e nós concordamos, que a parte da história relativa aos reis de Portugal, prometida para o fim da Crónica, para que “ se entendesse melhor  ” , não foi afinal incluída neste livro pois naquela mesma altura faria parte de outro volume que se destinaria, como a Crónica de 1344  , à mesma livraria. Sabemos, olhando para a árvore genealógica dos manuscritos da Crónica de 1344   que Cintra desenhou, que existiram dois textos da segunda redação antes do manuscrito de Lisboa: um que seria o srcinal da segunda redação, e o outro, uma cópia intermédia, os dois hoje perdidos. Segundo Cintra terão sido ambos realizados nos primeiros anos de 1400. Não sabemos, no entanto, por quem. O que nos parece claro ao lermos as passagens acima transcritas é a contemporaneidade entre a elaboração do manuscrito de Lisboa da Crónica de 1344   e a redação da Crónica de Portugal de 1419  . A circunstância de se adiar consecutivamente a inserção dos episódios dos reis de Portugal, no decurso da escrita da cópia, revela talvez a vontade de se isolar essa parte da história que, por estar sendo tratada individualmente num manuscrito à parte, se tornou dispensável no texto da Crónica de 1344 de Lisboa, se considerarmos o encomendante dos dois livros como a mesma pessoa. Faz, portanto, sentido que a cópia do texto da segunda redação da Crónica de 1344   que deu srcem à Crónica de 1344   de Lisboa coincida temporalmente com o “ tempo que nós, o iffante, fizemos esta coroniqua  ” (Calado 1998, XXXIX), a Crónica de Portugal de 1419.    O   F ASCÍNIO DO G ÓTICO .   U M TRIBUTO A J OSÉ C USTÓDIO V IEIRA DA S ILVA   90 As duas “Crónicas de Espanha” que aparecem na lista dos livros de D. Duarte (Dias 1982), datada entre 1423 e 1438, seriam então, uma, o srcinal da segunda redação, ou cópia intermédia, ou até uma cópia da primeira redação  –    esta “Crónica de Espanha” está expressamente diferenciada da que se lhe segue pois juntaram-lhe a indicação do seu estado primário em cadernos     –   e a outra, a Crónica de 1344   de Lisboa que na lista aparece imediatamente acima da Coronica de Portugal (Cintra 2009, CDIV). O intervalo temporal entre 1423 e 1438 dentro do qual o texto do manuscrito de Lisboa já estava redigido condiz com a nossa proposta de datação para a iluminura, que localizámos nos anos 30, princípios de 40 de Quatrocentos. Por outro lado, o aparato sem igual desta Crónica de 1344  , no contexto da iluminura quatrocentista portuguesa, suporta a tese de Cintra e com a qual nós concordamos, de que terá sido feita para rechear a livraria real, mais concretamente a livraria de D. Duarte (Dias 1982). Fazia parte, seguramente, como o Leal Conselheiro e Livro da Ensinança   ou o Livro da Virtuosa Benfeitoria  , do  programa   de educação da nobreza cortesã perpetrado pelos primeiros príncipes de Avis, D. Duarte e o Infante D. Pedro (Calado 1998). Ora se era como estes seus contemporâneos, para ser lido e entendido como testemunho do poder da monarquia, é lógico que a sua ornamentação não seria descurada quando terminado o texto. As funções práticas de orientação na leitura, de rememoração do que foi lido e, neste caso específico, de ostentação do poder régio, já para não falar do conhecido gosto da família real pelo manuscrito iluminado, são suficientes para acreditarmos num trabalho contínuo entre escrita e decoração, no que respeita à Crónica Geral de Espanha de 1344   de Lisboa. Concluímos, portanto, que o tempo em que a Crónica de 1344   de Lisboa foi copiada, tal como tentámos demonstrar acima, a partir dos trabalhos de Lindley Cintra, coincide com a chegada de Fernão Lopes ao arquivo real e com os trabalhos cronísticos que por essa altura lhe terá confiado D. Duarte, ou seja, o fim dos anos 10 e os anos 20 do século XV. Com a Crónica de Portugal   começada em meados de 1419 é natural que a cópia da segunda redação da Crónica de 1344 que D. Duarte quis para a sua biblioteca, tenha acabado por não incluir a história dos reis de Portugal, uma vez que essa estava sendo colocada num texto independente. Talvez entre o final de 20 e a década de 30 do século XV tenha começado o labor dos iluminadores, uma atividade que embora a três mãos, como tentámos provar noutro estudo (Tibúrcio 2013a), rejeitamos ter sido em algum momento interrompida. A ideia de continuidade na execução do manuscrito de Lisboa da Crónica de 1344   apoia a nossa tese de que a iluminura  O  MANUSCRITO DA C  RÓNICA G  ERAL DE E SPANHA DE 1344    91 deste manuscrito é dos anos 30, quanto muito inícios de quarenta do século XV. Com o objetivo de reforçar tal hipótese examinaremos em seguida alguns dados trazidos à discussão por Horácio Peixeiro que suportam a tese contrária. Algumas características codicológicas e decorativas e a (des)continuidade de execução Sugerindo alguma descontinuidade na realização da decoração do códice, Horácio Peixeiro (2009, 154; 2014, 149-151; 2014a, 288) realçou a relação dos fólios de 43 linhas com aquilo que o historiador da arte designa de 1º estilo  –   e que no nosso estudo de Mestrado corresponde ao modelo 1, modelo 2 e modelo 3  –   e dos fólios de 42 linhas com o que apelida de 2° estilo  –   correspondentes no nosso estudo ao submodelo 3A 2 . Horácio Peixeiro diz também: a respeito do caderno 20, um quínio e não quaterno como os restantes, recomposto, com fólios cortados e intercalados, que corresponde aos reinados e às imagens dos reis (…) indicando uma provável alteração do programa figurativo. (Peixeiro 2014, 150). A esta tese teceríamos duas críticas: primeiro, daquilo que pudemos analisar da iluminura do manuscrito, não nos parece evidente uma alteração de programa figurativo na Crónica como o autor menciona, bem pelo contrário. Na nossa opinião, não se pode confundir programas desconexos, de que fala Horácio Peixeiro, que nada têm a ver uns com os outros, com nenhuma harmonia ou ligação global, com um programa que, embora apresente aspetos diversos, na totalidade sugere constância e planificação prévia 3 . Por outro lado, a diferença de regramento entre os cadernos de iluminura mais faustosa, mais elaborada, e os cadernos de iluminura mais simples, corresponderá, na verdade, a coerência ou incoerência entre a constituição dos cadernos e a decoração? Nós tendemos para a primeira hipótese, ou seja, existe coerência. Aliás, segundo determinámos na nossa tese de mestrado (Tibúrcio 2013a), o iluminador com maiores limitações ao nível da figuração, que denominámos de 2  A propósito desta designação, modelo 1, modelo 2, modelo 3 e submodelo 3A, que usámos na nossa tese de Mestrado, decidimos abandoná-la pelos equívocos que poderia causar a sua interpretação, em particular quando traduzidos os termos para outra língua. Decidimos por isso usar a terminologia de iluminador 1, iluminador 2 e iluminador 3 (ao qual correspondem o modelo 3 e submodelo 3A, enquanto dois modos idênticos de desenhar e pintar que apenas divergem no programa decorativo). 3  Exporemos a nossa argumentação com maior pormenor relativamente a este assunto nos dois pontos seguintes.
Related Search
Related Docs
View more...
We Need Your Support
Thank you for visiting our website and your interest in our free products and services. We are nonprofit website to share and download documents. To the running of this website, we need your help to support us.

Thanks to everyone for your continued support.

No, Thanks