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Simone Dreyfus e a antropologia: um tropismo pela América do Sul

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Entrevista feita com a antropóloga francesa Simone Dreyfus
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  Simone Dreyfus e a antropologia:um tropismo pela América do Sul 1  Artionka Capiberibe Doutora em Antropologia Social (Museu Nacional – UFRJ)Oiara Bonilla Doutora em Antropologia Social (LAS – École des Hautes Etudes en Sciences Sociales) A trajetória de Simone Dreyfus-Gamelon confunde-se com a história da antropologia americanista. No final dos anos 1940, foi aluna de Claude Lévi-Strauss quando ele ainda elaborava as Estruturas elementares do pa-rentesco . Sob esta influência e a partir de pesquisas realizadas na Amazô-nia brasileira, tornou-se especialista nos sistemas de parentesco e na organi-zação social das sociedades ameríndias das Terras Baixas. Nos anos 1970-80  participou das discussões a respeito da aplicação às chamadas Terras Baixasda América do Sul  de modelos “clássicos” criados a partir de contextos etnográficos alheios, notadamente, da África e Oceania. Nessa mesma épo-ca, também começou a desenvolver pesquisas de Antropologia histórica so-bre a organização e as redes políticas indígenas da região Antilhas-Guianas,tornando-se uma das pioneiras na aplicação do conhecimento antropológicona análise de fontes históricas.Dreyfus-Gamelon é professora aposentada da cadeira de “Etnologia da América do Sul” da École des Hautes Etudes en Sciences Sociales (EHESS), fundadora e primeira diretora do Centre d’Enseignement et de  E NTREVISTA  . S IMONE  D REYFUS   E    A     ANTROPOLOGIA  ... - 336 - Recherche en Ethnologie Amérindienne (EREA), grupo de pesquisa liga-do ao Centre National de la Recherche Scientifique  (CNRS) e ao Laboratoire d’Ethnologie et de Sociologie Comparative  (LESC)   da Uni-versidade de Paris Ouest-Nanterre La Défense. Além de sua atuação acadê-mica, a antropóloga tem também uma forte presença na cena indigenista.Foi co-fundadora e vice-presidente (1979-1999) do braço francês da  Survival International e, aos 84 anos de idade, é membro ativa da filial  francesa da ONG International World Group for Indigenous Affairs .Esta entrevista foi realizada em julho de 2007 por Artionka Capiberibe e Oiara Bonilla no apartamento de Simone Dreyfus-Gamelon, em Paris. A entrevista é iniciada sem uma pergunta de abertura porque a antropóloga começou seu relato assim que ligamos os gravadores. Simone Dreyfus-Gamelon Escrevi vários artigos sobre as sociedades indígenas das grandes Anti-lhas, especialmente sobre os Taïno, e das pequenas Antilhas, as quaiseram chamadas de Karibs sem ser karib, pois falavam arawak. Publiquei,para os Anais do Congresso dos Americanistas de 1976 (Dreyfus, 1976),um artigo sobre a organização social desses “supostos” Karibs das ilhas,que se chamavam, na verdade, Kalinago ou Kalinago-Kaliponam. Ba-seei-me amplamente no dicionário Caraïbe-français   do padre Breton 2 para compreender o significado das palavras e também para descrever osistema de parentesco desses grupos. Além disso, esse dicionário prova que não se trata dos Karibs, uma vez que é o dicionário de uma língua arawak. Aliás, ele diz em algum lugar, que estas pessoas não falam a lín-gua daqueles a quem chamamos hoje de Kariña, na Guiana francesa,que são os verdadeiros Karibs, pertencentes à família lingüística karib.Douglas Taylor, um lingüista inglês que tinha vivido durante anos na   R  EVISTA    DE  A  NTROPOLOGIA  , S  ÃO  P  AULO , USP, 2008, V  . 51 N º 1. - 337 - Dominica e trabalhado muito com todas as línguas das Antilhas, mos-trou que, de acordo com o dicionário do padre Breton, tratava-se mes-mo de uma língua arawak e que os Garifuna de Honduras, descenden-tes dos Kaliponam das Guianas, ainda falam esta língua. São os últimosrepresentantes da língua indígena das pequenas Antilhas de antes da conquista européia.O que me interessa são as estruturas sociais, as estruturas políticas, ossistemas de parentesco. Comecei a ver que as sociedades das pequenas Antilhas mantinham relações constantes com o Continente. E trabalheicom esse conjunto que constituía, a meu ver, um sistema político queenglobava as pequenas Antilhas e a Guiana, ou melhor, as Guianas. Já havia escrito vários artigos sobre o que eram os so called   Karibs das pe-quenas Antilhas. Havia feito um trabalho sobre sua organização social(Dreyfus, 1983-1984), a qual era muito voltada para a guerra, apresen-tando um fenômeno que poderia, de certa forma, ser comparado aos big men da Melanésia, ou seja, o de homens que ascendem pela via doprestígio adquirido na guerra e que se tornam líderes no nível do grupolocal. Estes big men  das pequenas Antilhas adquiriam seu prestígio nasexpedições de guerra que realizavam no Continente regularmente a cada ano pelo menos.Em seguida, trabalhei sobre as relações políticas nas Guianas(Dreyfus, 1992). Tinha a intenção, que nunca realizei, de reunir todoesse material em um pequeno volume sobre a constituição dos sistemaspolíticos, em todo caso, dos do norte da América do Sul. As Guianas constituem uma ilha – o que se chamou de ilha conti-nental – delimitada pelo Oceano Atlântico e o mar do Caribe, ao norte;o rio Orinoco, a oeste; o canal do Cassiquiare, permitindo a comunica-ção do sistema do Orinoco com o sistema do rio Amazonas, ao sul; e a leste, a foz do Amazonas. Portanto, é realmente uma terra recortada,cercada de água, no interior da qual as pessoas estavam em intensa co-  E NTREVISTA  . S IMONE  D REYFUS   E    A     ANTROPOLOGIA  ... - 338 - municação, por meio de um sistema de redes políticas que era ativadopela guerra, pelas razias e pelas trocas. Não havia antinomia entre a guer-ra e as trocas.Lévi-Strauss escreveu um artigo (Lévi-Strauss, 1943), há muito tem-po, sobre esse assunto. E esse é um dos raros pontos sobre o qual nãoestou de acordo com ele. Ele falava sobre a antinomia entre a troca e a guerra. Tentei demonstrar que guerra e comércio estão sempre ligados,que se faz guerra e ao mesmo tempo troca-se, toma-se mulheres, leva-secoisas, bens preciosos.Trata-se de uma posição totalmente contrária à de Clastres. Nunca concordei com sua visão da “sociedade primitiva”, da “sociedade contra o Estado”. Pode-se discutir sobre a questão do Estado, pois, de fato, oEstado, tal como é definido no Ocidente, não existe nessas regiões. Eleexiste nos Andes, existe na Meso-América, mas não existe na Amazônia.Não é porque não há Estado, que essas sociedades são, como ele disse:isoladas, estáticas, fechadas sobre si mesmas. Sua dinâmica foi quebrada pela colonização, pela conquista européia, que não somente tomou ter-ras, mas também introduziu mercadorias, como as ferramentas de ferro,o álcool, do qual os índios tornaram-se de imediato muito demandantes,e isto é evidentemente um elemento destruidor. Há um belo artigo de Alfred Métraux (1959) sobre a introdução das ferramentas de ferro nes-sas sociedades.Ora, os europeus chegaram muito cedo nas Guianas – creio que a primeira instalação de um forte militar na região do Essequibo data de1513 – ocuparam pouco o interior, mas a presença européia na Costa bastou para desmanchar as redes que a uniam ao interior, às ilhas, aosrios etc. Houve mesmo uma espécie de regressão, primeiro, uma conhe-cida queda demográfica e, depois, o desmantelamento das redes políti-cas que mantinham a existência dessas sociedades. E isto as reduziu a   R  EVISTA    DE  A  NTROPOLOGIA  , S  ÃO  P  AULO , USP, 2008, V  . 51 N º 1. - 339 - esse estado descrito por Clastres, que só se instalou, na verdade, no sé-culo XIX, entre o final do XVIII e do XIX. Estabeleceu-se essa estrutu-ra de pequenas aldeias que pouco comunicam umas com as outras, ouainda, que comunicam com o interior por meio da guerra e dos con-flitos, mas sem as vastas redes de trocas que existiam e que se apre-sentavam um pouco por toda a Amazônia. A idéia de sociedades ama-zônicas fechadas não resiste a uma análise daquilo que chamo deantropologia histórica. Prefiro chamar de antropologia histórica essa pes-quisa que se apóia em documentos históricos, forçosamente coloniais,mas que é decifrada graças aos conhecimentos da antropologia; não éuma história rememorada pelos próprios atores, ao que se poderia entãochamar de “etnohistória”. Gostaríamos de voltar alguns anos na história e conhecer um pouco de sua trajetória pessoal. Nasci em Paris, assim como minha mãe, minha filha, minha avó e mi-nha bisavó. Meu pai nasceu no leste, em Besançon, na região do Doubs,de pais alsacianos que tinham partido da Alsácia em 1871, por causa da guerra franco-prussiana. Meus quatro avós eram judeus, meus pais tam-bém. Eu sou atéia, mas, devido à ocupação alemã, a última, na qual tivede usar a estrela amarela, sempre disse que era de srcem judia. Nãotenho religião: sou francesa de família judia. Em 1940, durante a guer-ra, tinha quinze anos. Fui, sem dúvida, marcada por isso e é por estemotivo que sempre mantive meu sobrenome de nascença: Dreyfus.Casei-me com uma pessoa que se chamava Gamelon, mas para não es-conder esta srcem, sempre quis manter o sobrenome Dreyfus.
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